Protetores solares no ambiente marinho: seriam eles sempre positivos?

Atualizado: Abr 3

Autores: Mariana P. Haueisen, Raphaela A. Duarte Silveira, Marcus Farah, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró

Protetores solares podem causar impactos no ecossistema marinho. Fonte: dimitrisvetsikas1969/Pixabay (Domínio Público).



Muitas vezes ouvimos falar que os protetores solares são importantes para a nossa saúde. No entanto, poucos sabem sobre os impactos que eles podem causar no ecossistema marinho. Sendo assim, o que fazer?



TIPOS DE PROTETORES


Para iniciar o entendimento sobre este tema, deve-se entender sobre as categorias do material em estudo. Existem dois tipos de protetores solares: os físicos e os químicos. Filtros físicos, por formarem uma camada opaca sobre a pele, refletem a luz por mecanismo óptico. Filtros químicos absorvem a radiação ultravioleta, que é altamente energética, transformando-a em radiações com energias menores e de menor impacto ao organismo humano.



A INCIDÊNCIA DA RADIAÇÃO SOLAR AUMENTOU!


O uso de protetores solares ou filtros solares é necessário, visto que a radiação ultravioleta contribui para o desenvolvimento de câncer de pele, queimaduras, insolação, manchas e envelhecimento precoce da pele. Além disso, seu uso deve ser frequente, pois houve um aumento da incidência da radiação solar ultravioleta nos últimos anos, inclusive no Brasil, devido a sua posição geográfica tropical e equatorial. Contudo, é importante proteger a pele mesmo em dias nublados e ambientes fechados, pois ainda há incidência constante de radiação nessas condições, contribuindo com o desenvolvimento de problemas de saúde.



PROTETORES SOLARES COMO CONTAMINANTES


Apesar de importante para a nossa saúde, há evidências de filtros solares como contaminantes encontrados em grande quantidade no ecossistema aquático. Por exemplo, pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná em 2013 demonstraram que o protetor solar pode ser genotóxico a uma espécie de peixe lambari, causando danos no DNA. Um outro estudo realizado por diversos pesquisadores espanhóis e brasileiros, também em 2013, identificou a ocorrência de componentes de filtros solares no tecido hepático de mamíferos aquáticos.

Além disso, filtros solares têm um papel importante no branqueamento dos corais. Eles podem induzir um ciclo de infecção viral nas zooxantelas, mesmo em concentrações bem baixas, o que pode ser bastante prejudicial para a biodiversidade e para os serviços ecossistêmicos realizados pelos recifes de corais.


Como alternativa, já existem fotoprotetores que causam menor impacto no ecossistema aquático devido à ausência de determinadas substâncias químicas que contribuem para o impacto no ambiente marinho. Entretanto, devem ser usados como complemento ao filtro solar químico, por não serem totalmente eficazes contra o câncer de pele.


Substâncias dos protetores solares químicos podem contribuir para o avanço do branqueamento dos corais. Fonte: Ishan@seefromthesky/Unsplash (Domínio Público).



POLUIÇÃO


O uso desses filtros também vem contribuindo com a poluição. Um estudo realizado na Universidade Federal da Bahia indica que o plástico foi o principal tipo de resíduo sólido encontrado nas praias do litoral sul da Bahia, sendo seus principais componentes garrafas PET, vasos de água mineral, vasilhames de detergente, de álcool, e de cosméticos (incluindo protetor solar e bronzeador), embalagens de óleo para motor, copos descartáveis, sacolas, embalagens de alimentos, entre outros. Pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba também encontraram bastante lixo marinho em áreas de reprodução de tartarugas marinhas na Paraíba e, dentre eles, nota-se a poluição por embalagens de protetor solar.



COMO SOLUCIONAR?


Ao dar preferência para o uso do filtro solar físico, contribui-se para a diminuição do impacto que algumas moléculas químicas dos protetores solares químicos causam no ambiente aquático.

Outra alternativa é utilizar vestimentas e acessórios que cubram as partes do corpo que normalmente ficam expostas. O uso de chapéus, bonés, óculos de sol e roupas com tecidos capazes de agir como barreira para os raios ultravioleta podem contribuir para a redução do uso dos filtros solares que tanto impactam no meio ambiente.


Vestimentas e acessórios como chapéus podem evitar o uso dos protetores solares. Fonte: AdamKontor/Pexels (Domínio Público).



A RESPEITO DO ASSUNTO


A educação ambiental é construída por meio de três processos, necessariamente nesta ordem: sensibilização, conscientização, mobilização. A sensibilização é quando se internaliza o problema ambiental devido às emoções. A conscientização é o conhecimento sobre o assunto pelo indivíduo, as informações que ele recebe, ou seja, ele está ciente do problema mas não necessariamente irá agir para transformar se não estiver íntimo com a causa, se não estiver sensibilizado. Portanto, a mobilização apenas ocorrerá se o indivíduo tiver passado pelos dois processos anteriores, sendo ela o agir do indivíduo a fim de provocar mudanças a favor da causa ambiental


A partir do conteúdo exposto, pode-se concluir que os protetores solares são importantes para a prevenção de danos e doenças de pele, garantindo, assim, a qualidade de vida do indivíduo que utiliza deste produto. Entretanto, é interessante optar por maneiras alternativas de impedir que a radiação ultravioleta entre em contato com a pele, que diminuam o uso do protetor solar, o qual pode causar impactos substanciais no meio ambiente.




Bibliografia


ALMEIDA, Diogo Albuquerque de; VIEIRA, Marjorie Emanoeli Lopes. Avaliação preliminar da genotoxicidade de filtro solar comercial em Astyanax sp. 2013. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Tecnológica Federal do Paraná.


ANTONIOU, Christina et al. Sunscreens–what's important to know. Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology, v. 22, n. 9, p. 1110-1119, 2008.


BAILLO, Vanessa Priscila; LIMA, A. C. Nanotecnologia aplicada à fotoproteção. Revista Brasileira de Farmácia, v. 93, n. 3, p. 271-278, 2012.


Da Redação. Coppertone e TerraCycle dão destino sustentável às embalagens de protetor solar. Exame. Abril Mídia. 2011. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/marketing/coppertone-e-terracycle-dao-destino-sustentavel-as-embalagens-de-protetor-solar/>. Acesso em: 14 de ago. 2018.


DANOVARO, Roberto et al. Sunscreens cause coral bleaching by promoting viral infections. Environmental Health Perspectives, v. 116, n. 4, p. 441, 2008.


DIFFEY, B.L.; GRICE, J. The influence of sunscreen type on photoprotection. British Journal Of Dermatology, Durham, v. 1997, n. 137, p.103-105, jan. 1997.


DO NASCIMENTO, Luciano F.; DOS SANTOS, Elisabete P.; DE AGUIAR, Alcino P. Fotoprotetores orgânicos: Pesquisa, inovação e a importância da síntese orgânica. Revista Virtual de Química, v. 6, n. 2, p. 190-223, 2013.


FENT, Karl et al. A tentative environmental risk assessment of the UV-filters 3-(4-methylbenzylidene-camphor), 2-ethyl-hexyl-4-trimethoxycinnamate, benzophenone-3, benzophenone-4 and 3-benzylidene camphor. Marine Environmental Research, v. 69, p. S4-S6, 2010.


FERRARI, Márcio et al. Determinação do fator de proteção solar (FPS) in vitro e in vivo de emulsões com óleo de andiroba (Carapa guianensis). Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 17, n. 4, p. 626-30, 2007.


FLOR, J.; DAVOLOS, M.R.; CORREA, M.A. Protetores solares. Química Nova, Araraquara, v. 30, n. 1, p.153-158, jan. 2007.


GAGO-FERRERO, Pablo et al. First determination of UV filters in marine mammals. Octocrylene levels in Franciscana dolphins. Environmental Science & Technology, v. 47, n. 11, p. 5619-5625, 2013.


GONTIJO, L. C.; BUSTAMANTE, P. D.; SOUZA, R. A. A fotoproteção como ferramenta de saúde pública no Brasil. Revista Eletrônica Parlatorium; ano IV, janeiro – junho/ 2015; p.4-12.


JORNAL SP ZONA SUL. Descarte correto de embalagens de protetores solares e loções. S. Paulo Zona Sul. 2015. Disponível em: <http://jornalzonasul.com.br/descarte-correto-de-embalagens-de-protetores-solares-e-locoes/>. Acesso em: 14 de ago. 2018.


SANTOS, Adeylan Nascimento et al. Poluição das praias do litoral sul do estado da Bahia por lixo e resíduos de petróleo. 2005.


SANTOS, A. Joel M.; MIRANDA, Margarida S.; DA SILVA, Joaquim CG Esteves. The degradation products of UV filters in aqueous and chlorinated aqueous solutions. Water Research, v. 46, n. 10, p. 3167-3176, 2012.


SILVA, P. B. D.; BACCOLI, B. C.; LEITE, A. P. S. Fotoprotetores de base tecnológicas:estudo da eficiência e segurança. Revista de Iniciação Científica da Universidade Vale do Rio Verde, v. 5, n. 2, 2015.


SILVEIRA, Geraldo Tadeu Rezende . Educação Ambiental como Instrumento de Gestão de Recursos Hídricos: Uma Proposta de Intervenção.. In: IX Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário. II Congresso do Quaternário de Países de Línguas Ibéricas. II Congresso sobre Planejamento e Gestão da Zona Costeira dos Países de Expressão Portuguesa., 2003, Recife. Anais do IX Congresso, 2003.


TerraCycle. Programa Nacional de Reciclagem de Embalagens de Protetor Solar. 2018. Disponível em: <https://www.terracycle.com.br/pt-BR/brigades/brigada-coppertone-protetores-do-planeta/brigade_faqs>. Acesso em: 14 de ago. 2018.


VIOLANTE, Ivana MP et al. Avaliação in vitro da atividade fotoprotetora de extratos vegetais do cerrado de Mato Grosso. Brazilian Journal of Pharmacognosy, v. 19, n. 2a, p. 452-457, 2009.



#protetoressolares #impactosantrópicos #ecossistemamarinho #branqueamentodecorais #BiologiaMarinha

178 visualizações

Assine a lista exclusiva e receba novidades!

© 2020 Instituto de Biologia Marinha Bióicos