Acidentes com águas-vivas no Brasil: um problema em ascensão?

Atualizado: Jul 3


Autores: Thomas Antonétti Karloh, Renato Nagata, Raphaela A. Duarte Silveira, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró

Chrysaora lactea, uma das principais espécies causadoras de acidentes na costa brasileira. Fonte: Marcelo Visentini Kitahara/Banco de imagens Cifonauta (CC BY-NC-SA 3.0).



OCORRÊNCIA DE ÁGUAS-VIVAS NA COSTA E SUAS PRINCIPAIS CONSEQUÊNCIAS


Águas-vivas são familiares às populações litorâneas, que geralmente carregam uma visão negativa sobre esses animais, devido aos acidentes e prejuízos à pesca, que se intensificam quando esses organismos atingem grandes densidades no mar. São conhecidas cerca de 1500 espécies, das quais a grande maioria mede menos de 2 centímetros, porém algumas espécies podem medir mais de 2 metros de diâmetro e ter tentáculos de até 40 metros, que poderiam envolver um ônibus.


Embora a presença desses animais seja, de certa forma, esperada e usual, ao longo dos últimos anos um aparente aumento no número de acidentes com banhistas tem chamado a atenção de autoridades e da sociedade. Somente no mês de janeiro de 2017, ocorreu um surto de acidentes em Santa Catarina, com mais de 6600 casos registrados. Durante o verão de 2018-2019, foram registrados cerca de 50 mil atendimentos a banhistas, feitos pelo corpo de bombeiros do litoral do Rio Grande do Sul. Informações sobre a biologia geral desses animais ainda são escassas e pouco difundidas, e são essenciais para se compreender o contexto desses surtos de acidentes.



PRINCIPAIS ESPÉCIES OCORRENTES NA COSTA BRASILEIRA


Olindias sambaquiensis: Esse hidrozoário é conhecido por pescadores de algumas regiões como "água-viva reloginho". Pode atingir até 10 cm de diâmetro e é o principal responsável por acidentes nas praias do extremo sul do país. Possui inúmeros tentáculos finos, de coloração amarelada, alaranjada ou púrpura. Intoxicações provocadas por essa medusa geralmente causam lesões na pele de formato arredondado e com pequenas linhas na região do contato. Na maioria dos casos não são observadas outras reações sistêmicas como vômitos, desmaios, convulsões, ou problemas respiratórios.



Exemplares de Olindias sambaquiensis (A, B) e uma lesão típica do contato com a espécie (C). Fontes: Melisa Hecht/Vida animal em Claromeco (A); Marcelo Visentini Kitahara/Banco de imagens Cifonauta/USP (B)(CC BY-NC-SA 3.0); 9º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Tramandaí (C).



Chrysaora lactea: Cifozoário comum ao longo de toda a costa brasileira, provocou cerca de 20 mil acidentes na costa do Paraná, no verão de 2011-2012. A maioria consistiu em lesões de formatos variados (ovóides, irregulares e alongados) que desapareceram após algumas horas. Porém, cerca de 600 pacientes procuraram serviços de emergência, apresentando reações alérgicas e efeitos sistêmicos.


Exemplares de Chrysaora lactea. Mesmo encalhada, é possível ser identificada. Fontes: Otto M. P. Oliveira/ Banco de imagens Cifonauta/USP (A)(CC BY-NC-SA 3.0); Daniel Castellano/Gazeta do Povo (B).



Lychnorhiza lucerna: Essa espécie de cifozoário é uma das maiores e mais abundantes da costa brasileira, porém é inofensiva para humanos. Essa água-viva não possui tentáculos na sua margem e possui estruturas de formato cônico inseridas no centro de sua umbrela, chamadas de braços orais. Quando ocorre em grandes densidades, atrapalha atividades pesqueiras ao entupir redes de pesca. Devido a sua abundância e ao seu tamanho relativamente grande, destaca-se pela importância ecológica, ao servir de alimento para parasitas, algumas espécies de peixes e outros vertebrados marinhos, assim como abrigar organismos menores que utilizam suas estruturas corporais como refúgio.


Exemplares de Lychnorhiza lucerna (B,C) e seus eventuais prejuízos à atividade pesqueira (A,D). Fonte: Renato Nagata/Acervo Pessoal(A); Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (B)(CC BY-NC-SA 3.0); Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (C)(CC BY-NC-SA 3.0); Renato Nagata/Acervo de Pessoal (D).



Tamoya haplonema e Chiropsalmus quadrumanus: São cubozoários encontrados ao longo de toda a costa brasileira que, junto com as caravelas, provocam os acidentes com efeitos mais graves. Essas espécies já causaram surtos de acidentes no litoral de São Paulo, porém são organismos mais raros em nossas praias.



Exemplares de Tamoya haplonema e Chiropsalmus quadrumanus, em laboratório.Fontes: Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (A) (CC BY-NC-SA 3.0); Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (B) (CC BY-NC-SA 3.0); Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (C) (CC BY-NC-SA 3.0); Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (D) (CC BY-NC-SA 3.0).



Physalia physalis: A "caravela portuguesa" difere das águas-vivas por ser uma colônia, com diversos indivíduos interligados. Possuem uma coloração roxo-azulada na região do flutuador, que é semelhante a uma bexiga. Seus tentáculos podem alcançar até 32 metros de comprimento e ter uma concentração de até 80 mil nematocistos por metro. Essa espécie ocorre no sul do Brasil, principalmente no verão, quando predominam os ventos de NE, que transportam o animal de regiões de mar-aberto para a costa. Isso coincide com o aumento do número de banhistas e pode aumentar o risco de acidentes, que podem causar sérias lesões cutâneas e gerar complicações sistêmicas, como parada respiratória, desmaios e convulsões, resultando em mortes ou aumentando o perigo de afogamentos.


Exemplares de Physalia physalis, em laboratório (A e D) e encalhado na praia (B) e diferentes organismos que constituem a colônia (C). Fontes: Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (A) (CC BY-NC-SA 3.0); 9º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Tramandaí (B) (CC BY-NC-SA 3.0); Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (C) (CC BY-NC-SA 3.0); Alvaro E. Migotto/Banco de imagens Cifonauta/USP (D) (CC BY-NC-SA 3.0).



A IMPORTÂNCIA DE SE CONHECER


Entender como os fatores ambientais podem levar a possíveis aumentos das populações de águas-vivas é fundamental para uma compreensão da dinâmica das regiões costeiras e os possíveis períodos críticos em relação à presença de cada espécie. Fatores como maior temperatura da água e disponibilidade de alimento podem aumentar a atividade reprodutiva. Quando esses fatores coincidem com o aumento de banhistas nas praias, pode haver mais acidentes, como ao longo dos últimos anos.


Esse tema tem movimentando pesquisadores ao redor do mundo, devido a crescentes evidências de que populações de águas-vivas podem se proliferar com a degradação dos oceanos, por fatores como a poluição, a pesca predatória e a intensificação do efeito estufa. Porém, ainda não existe um consenso entre a comunidade científica sobre se as populações de águas-vivas estão aumentando globalmente.


No Brasil, uma vez que os programas de monitoramento de águas-vivas são escassos e ainda recentes, torna-se difícil concluir se essas populações estão aumentando, assim como os respectivos acidentes. Pesquisadores têm investigado detalhes da biologia reprodutiva dessas espécies e de sua dinâmica populacional, para compreender quais fatores influenciam essas proliferações e, com isso, traçar projeções e estratégias para se minimizar os prejuízos gerados por esses organismos.




Bibliografia


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