Ruídos no oceano: ameaça invisível

Atualizado: Jul 3

Autores: Lucas Garcia Martins, Yonara Garcia Borges Felipe, Raphaela A. Duarte Silveira, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró


Cauda de baleia jubarte. Fonte: Jonathan Wilkins/Wikipedia (CC BY-SA 3.0)



Uma cauda de baleia levantada pode significar várias coisas. Ela pode estar mergulhando, se exibindo e também estar posicionada para se comunicar com outras baleias por vocalização. Contudo, você já imaginou (ou parou para pensar) que o som poderia ser um problema no oceano? Filmes e documentários que mostram o fundo mar perpassam a imagem de um ambiente calmo e silencioso, mas não é bem assim.


Na terra você consegue enxergar a luz das estrelas que estão a milhões/bilhões de quilômetros, ver montanhas ao longe, mas na água, mesmo no ambiente mais límpido, a visibilidade não passaria muito mais que 30 metros. Agora veja que, os animais marinhos, principalmente as baleias, golfinhos e muitas espécies de peixes, evoluíram de forma que a visão não fosse o principal meio de orientação. Eles dependem muito mais de sentir seu ambiente acusticamente para se orientar, encontrar indivíduos do grupo, localizar os limites costeiros e sentir alterações na água.


Normalmente, os oceanos são ambientes bastante barulhentos. Os organismos que vivem nele possuem uma rotina diária e apresentam horários de picos de atividades. Estes picos produzem bastante ruído, como a crepitação de corais (estalos emitidos pelos corais), o canto de baleias e vocalizações de golfinhos, sons emitidos por peixes, entre outros.

Com o avanço constante da tecnologia, as pesquisas marítimas mostraram que as atividades de embarcações com ênfase em transportes navais, sonares e equipamentos sísmicos vêm criando uma nuvem de ruídos no oceano que está dificultando a vida dos animais marinhos de todo o planeta, com destaque principal nos mamíferos marinhos.



PROPAGAÇÃO DOS SONS NOS OCEANOS: COMO FUNCIONA?


A água é o meio perfeito de propagação do som, sendo ele 4 vezes mais rápido que no ar, atingindo grandes distâncias rapidamente. Dessa forma, sons muito fortes conseguem cobrir uma área muito grande no oceano e atingir os animais ao redor.


Na ilustração, há ondas sonoras vindas de diferentes tipos de embarcações, com vários níveis de intensidade, que podem ser captadas por animais marinhos. Fonte: NOAA (Domínio público).



Os princípios dos sonares e equipamentos sísmicos são os mesmos, uma vez que ambos fazem mapeamento da matéria sólida presente no ambiente por meio da interpretação de ecos. Mas como assim? Os aparelhos emitem sons de alta frequência que se espalham em toda a área e, quando atingem algo sólido, são refletidos e captados pelo equipamento e os dados interpretados pelos pesquisadores ou trabalhadores da área que estão usando esses dados para gerar ilustrações.

No entanto, esses sons tão fortes, juntamente com os motores de embarcações navais, são capazes de interferir no campo acústico dos animais que vivem naquela área alterando o comportamento deles, principalmente dos cetáceos (baleias e golfinhos).



COMO O SOM ALTERA A VIDA MARINHA?


As baleias e golfinhos utilizam os sons principalmente como meio de comunicação, mas também dependem deles para conseguirem se alimentar. Já ouviram falar em ecolocalização (ecolocação ou biossonar)? É um sistema de emissão de sons e recepção acústica dos ecos produzidos. Esse sistema permite que esses animais interpretem os objetos e formas sólidas, inclusive outros seres vivos ao redor do seu campo sonoro. Contudo, é importante destacar que as baleias e golfinhos pertencem à Ordem Cetacea, divididos em Mysticeti que englobam as baleias de barbatanas que não possuem a ecolocalização, e os Odontoceti que abrangem os golfinhos, baleias dentadas e o Cachalote, que possuem esse sistema.


Ilustração esquemática do sistema de ecolocalização. As ondas sonoras emitidas pelo golfinho refletem no peixe e parte delas retornam para o golfinho, que interpreta a posição do peixe. Fonte: Adaptado de Achat1999/Wikipedia (CC-BY-SA-4.0)



Agora, imagine que todo esse sistema de ecolocalização possa não funcionar, pois o ambiente possui barulho demais para que os golfinhos consigam interpretar o som. Além disso, também atrapalharia bastante a vida dos outros mamíferos que não possuem a ecolocalização. Desta forma, eles não conseguirão interagir eficientemente entre si e, principalmente, podem não conseguir caçar suas presas.

Não só os mamíferos entram em perigo com os sons emitidos pela atividade humana, mas todos os animais que, de alguma forma, sofrem danos comportamentais ou físicos pelo excesso de sons. Além disso, todo o ecossistema subaquático é prejudicado, assim como as interações, reprodução, alimentação e teias tróficas, causando um grande desequilíbrio. Como consequência, as populações residentes dos oceanos podem sofrer sérios danos, refletindo nas atividades de pesca ao comprometer estoques pesqueiros e diversas atividades submarinas como mergulho, pesca esportiva e turismo de observação.



O QUE FAZER PARA EVITAR A POLUIÇÃO SONORA NOS OCEANOS?


Alianças com pesquisadores para sensibilizarem os governos e empresas a restringirem as atividades em habitats biologicamente sensíveis são uma importante estratégia. É necessário um estabelecimento de controle rígido da emissão de ruídos nos oceanos com base em pesquisas de monitoramento.

No entanto, a poluição sonora é uma problemática global e que se alastra para além das fronteiras entre os países. Assim, os esforços para a solução devem ser globais, para que os efeitos de ruídos cumulativos sejam incorporados em avaliações de impacto ambiental.



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Bibliografia


COSTA, Emerson S.; MEDEIROS, Eduardo B. ESTUDO SOBRE A PROPAGAÇÃO ACÚSTICA EM ÁGUAS RASAS. In: Congresso de Métodos Numéricos em Engenharia. 2015.


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O GLOBO. Poluição sonora causa mudanças físicas comportamentais na vida marinha. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/poluicao-sonora-causa-mudancas-fisicas-comportamentais-na-vida-marinha-2798700. Acesso 25 jun.2019.


HOFFMANN, Lilian Sander. Um estudo de longa duração de um grupo costeiro de golfinhos Tursiops truncatus (Montagu, 1821)(Cetacea, Delphinidae) no sul do Brasil: Aspectos de sua biologia e bioacústica. 2004.


SILVANO, Bruna Coelho Raupp et al. Revisão sobre os efeitos da poluição sonora aos cetáceos: identificação de prioridades para trabalhos futuros no Arquipélago de Santa Catarina. 2017.


SIMMONDS, Mark P. et al. Marine noise pollution-increasing recognition but need for more practical action. 2014.


SOARES, Cristiano; JESUS, S. M. Processamento por ajuste de campo em acústica submarina e aplicações. Jornadas do Mar, 2004.



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