Monitoramento de cetáceos marinhos e métodos de pesquisa

Atualizado: Abr 7

Autores: Lucas Garcia Martins, Mariana P. Haueisen, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró



Os cetáceos são, certamente, um dos grupos de animais que mais encantam e inspiram histórias fantásticas entre as pessoas. Contudo, bem mais que animais simpáticos, esses gigantes possuem importantes nichos ecológicos que garantem a saúde dos ecossistemas marinhos costeiros e oceânicos. Portanto, é importante estudar esses animais, mas, diferentemente de métodos de pesquisa de invertebrados, ninguém irá coletar uma baleia. Então, como estudamos estes animais?


Casal de baleias jubarte. Podemos observar o borrifo e a nadadeira dorsal de cada animal. Registro feito na Plataforma Continental Norte do Brasil. Fonte: Lucas Garcia Martins, 2019 ©



ESTUDOS EMBARCADOS E PLATAFORMAS DE OPORTUNIDADE


De maneira geral, a pesquisa com cetáceos se atém às espécies que residem mais próximo à costa, devido à maior acessibilidade, já que os cruzeiros de pesquisa em águas distantes são logisticamente mais complexos e exigem mais recursos. Por isso, estudos de ecologia das espécies que vivem além do talude continental e estimativas populacionais são bem escassos. A maioria de dados coletados sobre elas são, na verdade, coletas oportunistas em cruzeiros turísticos, mercantes ou até mesmo navios oceanográficos que não se dedicam à pesquisa de cetáceos.


Estas coletas são chamadas de Plataformas de Oportunidade. Embora esse método gere novos dados, quase sempre, para compreensão da história de vida destes animais, precisa-se de cruzeiros dedicados integralmente. Embora esse método tenha um nome complicado, na verdade ele é bem simples. Tirar uma foto, gravar vídeos e marcar a localização de onde foram feitos os registros já fornecem uma grande gama de dados para os pesquisadores.



SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO: MÉTODO DA FOTOIDENTIFICAÇÃO


O uso da fotografia para identificação dos cetáceos foi empregado inicialmente para estudos com populações de golfinhos nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), por meio das características morfológicas e marcas de vida (cicatrizes, por exemplo) que permitiram estabelecer a “identidade” de cada golfinho. Então, este método foi utilizado para auxiliar na identificação de indivíduos de espécies de golfinhos e baleias, seguindo um protocolo para cada espécie.


De maneira geral, os golfinhos são identificados pelas cicatrizes e deformidades nas nadadeiras, embora que nas baleias também se utiliza, sobretudo em baleias jubarte e francas, o padrão de manchas das nadadeiras caudais e dispersão de calosidades na cabeça. Abaixo, pode-se observar que cada golfinho possui cicatrizes (marcas mais claras) na pele, elas são únicas para cada indivíduo e é o que permite identificar a “identidade” de cada animal.



Na foto A observamos a nadadeira dorsal do animal enquanto mergulha. Na B vemos a nadadeira dorsal e as marcas de vida evidentes no corpo do animal (manchas mais claras). Na C, três golfinhos mergulhando. E na D, mergulho do golfinho por outro ângulo. Registros feitos na Plataforma Continental Norte do Brasil. Fonte: Lucas Garcia Martins, 2018 ©



QUEM SOU EU? IDENTIFICAÇÃO DAS ESPÉCIES DE BALEIAS E GOLFINHOS


Sabe-se que, atualmente, foram descritas cerca de 88 espécies de cetáceos em ambientes marinhos e dulcícolas. Existem espécies muito semelhantes e para diferenciá-las são utilizados protocolos e características morfológicas específicas para identificá-las. Afinal, antes de iniciar qualquer pesquisa com esses animais, é vital reconhecer as espécies presentes na área de estudo. Isso irá denunciar hábitos alimentares, ecologia, biologia e outros aspectos conhecidos que deverão ser conhecidos previamente por meio de outros estudos já feitos em outros lugares.


Tudo se inicia com auxílio de uma chave de identificação, que contém as imagens e principais características a serem observadas no animal e, ao nos guiarmos por estas características, conseguimos dizer a espécie. Podemos ver abaixo um exemplo de principais características para identificação de golfinho-nariz-de-garrafa.


A mandíbula inferior maior que a superior; B: Cabeça arredondada com nítida marca do melão; C: nadadeira dorsal alta e curvada; D: nadadeira peitoral curta e curvada; E: barriga esbranquiçada. Registros feitos na Plataforma Continental Norte do Brasil. Fonte: Lucas Garcia Martins, 2018 ©



É importante destacar que nem sempre todas as características podem ser observadas, devido a ventanias, ondas, movimento dos animais e distância. Logo, acabamos tendo que usar menos características para fazer a identificação, o que pode torná-la incerta. Abaixo vemos algumas imagens que retratam bem isso, e a forma de contornar a situação é adquirir experiência com identificação de cetáceos. Depois de muito tempo observando esses animais, conseguimos perceber as espécies facilmente por algum comportamento ou característica própria.


Na foto A vê-se a nadadeira dorsal e mergulho de baleia jubarte; na B o mergulho com nadadeira dorsal evidente de uma orca; em C o borrifo de uma baleia jubarte;e na D três golfinhos-nariz-de-garrafa saltando da água. Registros feitos na Plataforma Continental Norte do Brasil. Fonte: Lucas Garcia Martins, 2019 ©



COMO EU POSSO AJUDAR A ESTUDAR CETÁCEOS?


As metodologias apresentadas são comprovadamente eficazes no estudo de cetáceos e contribuem para monitoramento e gestão, compreensão de dinâmica de populações e distribuição desses animais nos oceanos do mundo. Embora sejam grandes animais, os cetáceos estão sujeitos a ameaças como a poluição, a pesca fantasma, poluição sonora e pesca predatória. Portanto, a ajuda de todos é vital para entendermos e compreender mais sobre esses animais.


Você pode ajudar nas pesquisas com o método da Plataforma de Oportunidade. Viu uma baleia ou golfinho? Tire fotos e vídeos, marque os pontos geográficos do avistamento e envie para os centros de pesquisa da região. Alguns dos mais conhecidos são o Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Norte - CEPNOR, que também possui sedes no Nordeste (CEPENE) e Sul e Sudeste (CEPESUL), além do Instituto Australis em Santa Catarina e muitos outros. Esses dados contribuem para monitoramento, gestão e preservação destes animais no mundo inteiro.


E você? É graduando de Ecologia, Oceanografia, Biologia, Ciências Naturais, Engenharia de Pesca ou áreas afins? Pensa em estudar cetáceos? Pois agora você sabe como iniciar sua pesquisa ou nos ajudar com a nossa. Contamos com vocês!



Escute este artigo também pelo nosso Podcast. Clique aqui!



Bibliografia


BOWEN, W. D. Role of marine mammals in aquatic ecosystems. Marine Ecology Progress Series, v. 158, p. 267-274, 1997.


CASTRO, P.; HUBER, M. E. Biologia marinha. AMGH Editora, 2012.


DE CALAZANS, D. K. Estudos Oceanográficos: Do instrumental ao prático. Editora Textos, 2011.


JEFFERSON, THOMAS A.; LEATHERWOOD, STEPHEN; WEBBER, MARC A. Marine mammals of the world. Food & Agriculture Org., 1993.


PERRIN, WILLIAM F.; WÜRSIG, BERND; THEWISSEN, J. G. M. (Ed.). Encyclopedia of marine mammals. Academic Press, 2009.


YAMADA, T. K. Biological indices obtained from a pod of killer whales entrapped by sea ice off northern Japan. Comité scientifique, Commission baleinière internationale, Anchorage. Incertitude Gravité Potentiel d’atténuation, p. 15, 2007.



#cetáceos #dinâmicadepopulações #oceanografia #BiologiaMarinha

0 visualização

Quero receber por email os artigos novosl!

© 2020 Instituto de Biologia Marinha Bióicos