Animais Curiosos: monstros e unicórnios marinhos

Autores: Nicholas Negreiros, Mariana P. Haueisen, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró



“Chifre de unicórnio” em exposição no Museu de História Natural de Viena e Peixe-diabo, um “monstro marinho”. Fonte: Gryffindor/Marku1988/Wikimedia commons (CC0) e Wikimedia Commons/Ryan Somma (CC BY 2.0).



Muitos animais marinhos viram referência no universo cinematográfico, onde acabam ganhando visibilidade e despertando uma certa curiosidade nos telespectadores, como os tubarões. Outros, ficam famosos por suas aparências peculiares quando são capturados acidentalmente por redes de pescadores, que trazem histórias sobre aberrações vistas em suas viagens. No entanto, todos são bastante curiosos, com suas peculiaridades, enriquecendo, cada vez mais, a biodiversidade da Terra. Vamos conhecer um pouco sobre algumas dessas misteriosas espécies!



PEIXE-DIABO OU “PEIXE-DEMÔNIO”


Peixe-diabo em exposição no Museu de História Natural em Londres - Inglaterra. Fonte: Douglas F. Peiró ©.



O peixe-diabo negro ficou conhecido pelo filme “Procurando Nemo”, produzido pela Disney, em parceria com a Pixar, no ano de 2003.


O Melanocetus johnsonii é um peixe ósseo que habita todos os oceanos do mundo, mas existem pouquíssimos registros e informações sobre o tamanho das populações devido à grande profundidade em que vivem (entre 1,5 e 4,5 mil metros). Algumas espécies podem ser encontradas em águas mais rasas.



Ilustração representativa de uma fêmea do peixe-diabo negro, página 430 do Boletim do Museu Oceanográfico de Mônaco, 1904. Autor: Cliché Hachette. Fonte: Boletim do Museu oceanográfico de Mônaco/Flickr (CC0).



Alimentação


Como um bom predador de emboscada, sua tática de forrageio se resume a esperar e atrair suas presas, fazendo movimentos leves com uma haste (‘antena’) que possui bioluminescência, estratégia perfeita para um morador da zona afótica (onde a luz solar não alcança). Uma vez que suas presas são atraídas pela luz, mesmo que escapem das mandíbulas do peixe-diabo, são afetadas por uma neurotoxina diluída que libera pela pele ou, no caso de um bote bem sucedido, injeta com os dentes.


Reprodução


Apesar de sua aparência grotesca, as fêmeas desse “monstro” chegam no máximo a 20 cm e os machos não passam de três centímetros. O dimorfismo sexual (diferença acentuada entre os sexos da mesma espécie) é muito grande e sua reprodução é um tanto quanto bizarra. O sistema digestivo do macho se degenera com seu amadurecimento e ele precisa “parasitar” uma fêmea a partir daí, ou morrerá de fome. Quando o macho morde a pele da fêmea, acontece uma reação química que conecta o sistema circulatório dos dois e os transformam em “um só”. Isso garante que o macho tenha nutrição e à fêmea que ela tenha um macho sempre à disposição para a fecundação.



Ilustração representação do dimorfismo sexual em um Cryptopsaras couesii, uma espécie de peixe-diabo. Fonte: Dr Tony Ayling/Wikimedia Commons (CC BY-SA 1.0).



NARVAL: O UNICÓRNIO MARINHO


Grupo de narvais registrado pelo Dr. Kristin Laidre. Fonte: Dr. Kristin Laidre/Wikimedia Commons (CC0).



A espécie de baleia dentada é encontrada desde as águas da Baía de Hudson (Canadá), passando pelo norte até o Mar de Kara (Rússia). O narval é da mesma família da beluga e elas até possuem uma anatomia muito parecida, exceto por um detalhe: um “chifre” em formato de espiral. Esses “chifres” eram encontrados por pessoas que acreditavam ser dos lendários unicórnios e começaram a ser comercializados como sendo um objeto mágico, quando na verdade não era um chifre, e sim um dente! É um enorme dente canino. Ele cresce tanto que atravessa o lábio do animal e se estende por cerca de três metros para fora da boca.



Dente de uma baleia narval em exposição no Museu de História Natural em Londres - Inglaterra. Fonte: Emőke Dénes/Wikipedia Commons (CC BY-SA 4.0).



Alimentação


Suas principais presas são peixes e seus predadores são orcas, tubarões e ursos polares. Os ursos sabem que os narvais precisam vir à superfície para respirar e só precisam esperar pacientemente nas fendas e buracos no gelo.


Biologia


Muita curiosidade surgiu sobre a função de um dente canino tão grande e, com o tempo, foi observado que os dentes são usados para disputa entre machos, para atrair fêmeas e também para golpear suas presas, a fim de atordoá-las. Os outros dentes do narval, ao contrário de seu canino super desenvolvido, são muito pequenos, quase vestigiais.


Estima-se que existam por volta de 120 mil narvais no mundo todo, deixando-os na classificação de “Menor preocupação”, segundo a IUCN. Eles andam em grupos de até 20 indivíduos e, durante o verão, esses grupos podem se unir para o acasalamento em um supergrupo de até 1.500 membros. Os machos são um pouco maiores que as fêmeas e crescem até 5,5 m, podendo chegar a 1.600 kg.



E NO FIM DAS CONTAS, OS "MONSTROS" SÃO MESMO REAIS!


Podemos ver que o peixe-diabo-negro, uma das criaturas de aparência mais bizarra dos oceanos, é mesmo real e pode até ser um pesadelo para suas presas, mas está longe de ser um monstro. Muito pelo contrário, é um animal muito interessante para ser estudado e possui hábitos bem diferenciados.


Do outro lado temos o narval, cujo dente era vendido como item de cura na Idade Média por preços absurdos como seu peso em ouro, sendo tratado como o chifre de uma criatura mágica. Mas a ciência sempre acaba desmascarando esses mitos e hoje temos dezenas de criaturas como o narval e o peixe-diabo registrados, que servem como explicação para muitos mitos criados em nossas cabeças com o passar do tempo.




Bibliografia


FROESE, R.; D. PAULY. (2020). FishBase. Melanocetus johnsoni Günther, 1864. Disponível em: World Register of Marine Species: http://www.marinespecies.org/aphia.php?p=taxdetails&id=221410. Acesso em: 05 abr. 2020.


LEATHERWOOD, S.; T.A, JEFFERSON; WEBBER, M.A. &. “Marine mammals of the world”, 1993. FAO species identification guide. Roma, FAO. 320 p. Disponível em: http://www.fao.org/tempref/docrep/fao/009/t0725e/t0725e12.pdf. Acesso em 27 mar. 2020.


PERRIN, W.F. (2020). World Cetacea Database. Monodon monoceros Linnaeus, 1758. Disponível em: World Register of Marine Species: http://www.marinespecies.org/aphia.php?p=taxdetails&id=137116. Acesso em: 05 abr. 2020.


THEODORE W. PIETSCH, 1 ed. “The biology of deep-sea anglerfishes”. Oceanic Anglerfishes: Extraordinary Diversity in the Deep Sea, 2009 University of California Press, p. 3–22. Disponível em: https://content.ucpress.edu/chapters/10866.ch01.pdf. Acesso em: 24 mar. 2020.


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