Cavalos-marinhos: mamíferos ou peixes?

Atualizado: Abr 3

Autores: Raphaela A. Duarte Silveira, Thais R. Semprebom e Julia R. Salmazo


Cavalo-marinho (Hippocampus sp.). Fonte: Christian Bisbo Johnsen/unsplash (Domínio Público).



Os cavalos-marinhos pertencem à classe Actinopterygii, que juntamente com os Sarcopterygii formam o grupo Osteichthyes, ou popularmente conhecidos como peixes ósseos. Os peixes ósseos representam cerca de 96% dos peixes existentes, sendo o grupo de vertebrados mais diverso em número de espécies e indivíduos. As suas características mais marcantes são esqueleto ósseo (por isso o nome peixes ósseos), escamas dérmicas, opérculo (uma placa de ossos) cobrindo a câmara branquial em ambos os lados, nadadeira caudal homocerca, dois pares de nadadeiras medianas, boca terminal e vesícula gasosa (também conhecida como bexiga natatória).


Quem já viu uma tilápia, um exemplo de peixe ósseo, sabe que a sua anatomia é bem diferente de um cavalo-marinho, mas, sim, eles são do mesmo grupo. Venha conferir as principais características desses seres incríveis!



Diferença morfológica entre o cavalo-marinho e outro peixe ósseo. Fonte: adaptado de arhnue/Pixabay (Domínio Público) e christels/Pixabay (Domínio Público), respectivamente.



ANATOMIA


- Corpo:


A característica mais peculiar dos cavalos-marinhos é a forma do seu corpo, que parece ser a fusão de vários animais: a cabeça de um cavalo, uma cauda serpentiforme ou parecida com a de um macaco, uma bolsa similar à dos marsupiais (como cangurus) e os olhos com movimentação parecida com a dos camaleões.


Ao contrário da maioria dos outros peixes ósseos, os cavalos-marinhos não possuem escamas, mas sim um exoesqueleto formado de placas ósseas externas fundidas, resultando em uma cobertura carnuda. Eles podem variar de 1,5 cm a 36 cm de comprimento.



Algumas estruturas externas dos cavalos-marinhos. Fonte: adaptado de Clker/Pixabay (Domínio Público).



- Visão:


A visão dos cavalos-marinhos é bem desenvolvida e seus olhos podem funcionar independentes um do outro, ou seja, enquanto um olho está olhando para a frente, o outro pode olhar para trás. Essa habilidade é muito eficiente na procura de alimentos.


- Focinho:


O focinho desses animais é fino e alongado, o que permite procurar por alimentos em fendas. Além disso, há uma certa flexibilidade nessa estrutura, que pode se expandir se a presa for maior que ela. Os cavalos-marinhos não são capazes de mastigar, então, ao encontrar o alimento, eles o sugam pelo focinho, da mesma forma que um aspirador de pó.

- Cauda:


A cauda dos cavalos-marinhos é preênsil, o que permite a eles se agarrar em plantas e algas a fim de não serem arrastados pelas correntezas e ondas.



Hippocampus reidi. Observe a cauda preênsil e o focinho alongado. Fonte: Cliff/WikimediaCommons (CC BY 2.0).



HABITAT


Os cavalos-marinhos são encontrados em águas litorâneas, como recifes, baías, em meio a algas e em regiões estuarinas, como manguezais e canais. Sua distribuição ocorre em zonas tropicais e temperadas, abrangendo toda a costa brasileira.


Esses animais possuem seus territórios definidos, apesar de um território se sobrepor a outros. As fêmeas possuem território de aproximadamente 100 m² e os machos, de aproximadamente 0,5 m².


LOCOMOÇÃO


Os cavalos-marinhos não são nadadores muito habilidosos. Eles dependem muito da nadadeira dorsal, que bate cerca de 30 a 70 vezes por segundo, para impulsioná-los. As nadadeiras peitorais, que ficam nas laterais da cabeça, têm a função de proporcionar estabilidade e direcionamento.



DIETA


No geral, eles se alimentam de pequenos crustáceos, como camarões, e outros pequenos animais marinhos. Os adultos podem chegar a comer 30 a 50 vezes ao dia, enquanto que os filhotes comem muito mais. Já foi registrado o consumo 3600 crustáceos num intervalo de dez horas por juvenis de H. zosterae!


CORTEJO E REPRODUÇÃO


Os cavalos-marinhos são monogâmicos e existem relatos de que algumas espécies possuem o comportamento de saudação diária. A fêmea encontra o macho em seu território todos os dias cedo e eles mudam de coloração. O macho se move ao redor da fêmea e ambos giram em torno de um objeto por cerca de uma hora. Após esse processo, a fêmea volta para o seu território. Esse cortejo reforça o vínculo criado por eles.


Esses animais são os únicos em que ocorre uma gravidez reversa. A prática sexual é convencional, pois os machos que cortejam as fêmeas e competem pelo acasalamento. Porém, a gestação dos filhotes ocorre dentro do corpo do macho, após a fêmea transferir seus gametas para a bolsa dele. O número de ovos pode variar entre 50 e 150 em espécies pequenas, e 1500 para as maiores. O tempo de gestação pode variar de 14 dias a quatro semanas e o processo de dar à luz os filhotes pode chegar a 12 horas.



Cavalo-marinho macho grávido (Hippocampus whitei). Fonte: Sylke Rohrlach/WikimediaCommons (CC BY-SA 2.0).



CAMUFLAGEM E PREDAÇÃO


Os cavalos-marinhos possuem habilidades crípticas, ou seja, de se parecerem com o ambiente ao seu redor. Essas habilidades consistem tanto na mudança de coloração muito rapidamente, quanto no desenvolvimento de projeções cutâneas que mimetizam algas. Essas estratégias são muito importantes em situações de perigo, quando algum predador se aproxima.


Apesar dos mecanismos de defesa, há muitos predadores desses animais. Caranguejos, peixes carnívoros e humanos estão entre os predadores mais comuns dos cavalos-marinhos.



Cavalo-marinho Hippocampus satomiae em coral. Perceba como eles se camuflam em meio ao coral. Fonte: John Sear/WikimediaCommons (CC BY 3.0).



TAXONOMIA


No mundo há aproximadamente 54 espécies de cavalos-marinhos, todas pertencentes à família Syngnathidae e ao gênero Hippocampus. No Brasil, há três espécies: Hippocampus reidi, o cavalo do focinho longo; H. erectus, o cavalo-marinho raiado; e H. patagonicus, o cavalo do focinho curto.


Hippocampus reidi. Fonte: Schreibsal/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0).


Hippocampus erectus no New England Aquarium em Boston, MA. Fonte: Steven G. Johnson/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0).



Hippocampus patagonicus. Fonte: Chucao/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0).



AMEAÇAS


Além dos problemas de poluição dos mares e ambientes degradados, que afetam não somente esses animais, mas todos os outros seres vivos, essas espécies estão ameaçadas no mundo todo devido a, principalmente, três razões:


  • o tradicional mercado medicinal chinês, que retira da natureza todo ano cerca de 150 milhões de cavalos-marinhos, assim como conchas e estrelas-do-mar, para uso medicinal;

  • são vendidos desidratados como souvenirs;

  • cerca de vinte milhões de cavalos-marinhos são retirados do mar por ano para comércio e acredita-se que menos de mil sobrevivam mais do que seis semanas.


No Brasil, os cavalos-marinhos são vendidos em muitos lugares como forma de compor aquários e também como animal seco, que serve principalmente como decoração. Portanto, fique de olho ao comprar um souvenir em forma de cavalo-marinho, pois pode ser um animal de verdade e você pode estar contribuindo para a sua extinção!



Bibliografia


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