Cavalos-marinhos: por que os machos engravidam?

Autores: Aline Pereira Costa, Raphaela A. Duarte Silveira, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró



Macho de Hippocampus sp. grávido. Fonte: Owen Evans/Flickr (CC BY-SA 2.0)



É estranho ouvirmos que um macho pode gestar e dar à luz a sua cria, mas no reino animal isso é possível de ocorrer. Os cavalos-marinhos são um dos raros animais capazes dessa inversão de papéis, onde os machos recebem os ovos, fertilizam, gestam e ao fim dão à luz os filhotes. Mas a grande questão é o porquê e como esses machos adquiriram este papel que, normalmente, acontece com as fêmeas?


Sabemos que, apesar do nome cavalo-marinho, esses animais são peixes ósseos pertencentes à família Syngnathidae e ao gênero Hippocampus. Possuem o formato anatômico do corpo bem diferente daqueles peixes que geralmente conhecemos, podendo ser encontrados em águas litorâneas e regiões estuarinas.



REPRODUÇÃO DOS CAVALOS-MARINHOS


Estes peixes não chamam a atenção apenas por sua forma corporal, mas também por sua forma de reprodução. Ela começa com um envolvente ritual de acasalamento e finaliza com a gravidez dos machos. Ao se encontrarem, machos e fêmeas iniciam um tipo de dança de acasalamento, onde travam suas caudas até conseguirem alinhar seus corpos. Neste momento é que a fêmea deposita seus ovos na bolsa do macho. Com os ovos implantados em sua bolsa abdominal, os machos liberam espermatozoides que os fecundam. A partir da fecundação, eles desenvolvem até estarem prontos para nascerem. A bolsa dos machos é um órgão complexo, com várias características para o desenvolvimento do embrião, atuando na regulação da temperatura, do fluxo sanguíneo e da salinidade da água, garantindo assim que os filhotes estejam preparados para a vida no oceano.



POR QUE A TROCA DE PAPÉIS?


Mas o que sempre intrigou os pesquisadores era o porquê dos machos exercerem uma função que é natural nas fêmeas. Para os pesquisadores, a gravidez nos machos seria uma forma de produzirem mais filhotes viáveis uma vez que tem um cuidado parental durante todo o desenvolvimento embrionário. Assim, também, a fêmea pode produzir rapidamente mais ovos. Além disso, o compartilhamento de carga seria outra explicação, uma vez que gerar filhotes requer energia. As fêmeas utilizam da sua energia para nutrir os ovos produzidos, assim o pai ficaria responsável por proporcionar um ambiente seguro e controlado ao desenvolvimento do embrião. E, finalmente, a garantia da paternidade, pois ao carregar seus próprios filhotes é a garantia de transmissão da carga genética.


Entretanto, a partir de estudos genéticos, os pesquisadores chegaram à resposta de que os machos de cavalos-marinhos engravidam por questões evolutivas. De acordo com as pesquisas, a gravidez masculina é resultado de várias mutações genéticas independentes, em que as características foram transmitidas através de gerações. Como exemplo, em um estudo genético com Hippocampus comes (cavalo-marinho-cauda-de-tigre), foi identificado um gene específico associado à eclosão dos embriões. Para os pesquisadores, durante a evolução dos cavalos-marinhos, uma provável duplicação desses genes pode ter ocorrido, o que teria dado origem à gravidez nos machos.



Hippocampus comes, cavalo-marinho-cauda-de-tigre. Fonte: MartinThoma/WikimediaCommons (CC0).



Outro grupo de pesquisadores estudou os genes presentes na bolsa de machos da espécie Hippocampus abdominalis e identificou mais de 3 mil genes diferentes envolvidos no processo de gravidez. Eles descreveram genes que permitem que os machos forneçam nutrientes para os embriões em desenvolvimento, função até então realizada apenas pelas fêmeas durante a produção dos ovos. Esses nutrientes são ricos em gorduras e cálcio, o que permite ao embrião construir seus esqueletos e anéis corporais ósseos.



Casal de Hippocampus abdominalis no Monterey Bay Aquarium, Califórnia. Fonte: Elizabeth Haslam/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).



No mesmo estudo, os pesquisadores identificaram dois genes importantes. Um deles foi relacionado ao auxílio na remoção dos resíduos produzidos pelo embrião, permitindo a proteção do embrião contra infecções, por meio da produção de moléculas antibacterianas e antifúngicas. Enquanto o outro gene foi relacionado à preparação do pai e embriões para o trabalho de parto. Além disso, os pesquisadores descobriram que 5 a 10% dos genes envolvidos na gravidez dos machos de cavalos-marinhos são os mesmos envolvidos na gravidez de fêmeas de mamíferos, lagartos e outros peixes.

Estágios da gravidez de Hippocampus abdominalis. A figura mostra os estágios da reprodução no decorrer da gravidez, onde: 0 d (não grávido); 1-3 d (início da gravidez); 7-10 d (meio da gravidez); 14-17 d (final da gravidez) e 24 d (parto). Fonte: Whittington et al. (2015).



Os cavalos-marinhos são animais fascinantes e, apesar das grandes descobertas envolvidas nas suas estratégias reprodutivas, ainda há muito que pesquisar. Com certeza a evolução da gravidez em machos tem muito a oferecer ao conhecimento do mundo animal.




Bibliografia


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