Ecologia e estrutura de sistemas estuarinos

Atualizado: há 4 dias

Autores: Filipe Guilherme Ramos Costa Neves, Mariana P. Haueisen, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró



Um exemplo de ambiente estuarino (Estuário do Rio da Prata, Buenos Aires, Argentina, 2003). Pequenos afluentes (abaixo) fluem para o estuário com suas águas repletas de material orgânico (em marrom) adentrando o oceano (logo acima na imagem). Fonte: Earth Sciences and Image Analysis Laboratory, NASA Johnson Space Center/Wikimedia Commons (CC0)



Na região costeira encontramos uma variedade de ecossistemas. Cada um deles apresenta comunidades de organismos em constante interação entre si e com os componentes abióticos, ou seja, a água, a atmosfera e o substrato com suas características físicas e químicas. São exemplos de ecossistemas marinhos costeiros:

Tais ecossistemas podem apresentar uma conectividade, sendo o estuário um ambiente de grande produtividade e exportação de nutrientes. Vamos descobrir por quê!?



O ECOSSISTEMA ESTUARINO


O estuário é caracterizado como uma reentrância da linha de costa para o continente, onde a água doce de um rio se mistura à água salgada do oceano. Nesse ambiente há uma ‘dança’ estuarina: a água salgada entra no estuário por baixo da água fluvial, isto é, a água proveniente dos rios; esta, por sua vez, sai em direção ao mar. No movimento ocasionado pelas marés, essas águas revelam a ‘dança’ estuarina.


As características de mistura dessas duas águas, a fluvial e a marinha, podem definir os tipos de estuários:

  • Cunha salina: o estuário apresenta altos níveis de estratificação, ou seja, águas com diferentes níveis de salinidade, por exemplo, uma massa d’água mais salina em baixo de outra menos salina, estabelecendo assim os diferentes estratos. Esse tipo de estuário também possui baixíssimo nível de mistura. É perceptível uma camada de água doce em cima e uma camada de água salgada embaixo.

  • Parcialmente misturado: há mistura de água salgada com a água doce, mas ainda há um pouco de estratificação no sistema.

  • Bem misturado: a água doce é completamente misturada à água salgada. O estuário apresenta um gradiente de água menos salina para mais salina conforme se aproxima do oceano.



Estuário do Rio Amazonas visto em imagem de satélite (Região Norte do Brasil). As águas do Rio Amazonas, em azul, fluem para a desembocadura do estuário e, então, para o oceano, com as águas em azul mais escuro. Fonte: Nasa’s globe software World Wind/Wikimedia Commons (CC0).



Conforme o grau de mistura, as regiões estuarinas também podem ser classificadas conforme a seguir:

  • Alto estuário: região de grande influência fluvial, onde há quase nenhuma mistura entre as águas fluviais e marinhas.

  • Médio estuário: região onde há grande mistura de águas fluviais e marinhas.

  • Baixo estuário: região onde há grande influência marinha.

As grandes variações na salinidade, ou seja, variações da quantidade de sais na água, é uma característica marcante dos estuários. Há espécies que se distribuem nesse ecossistema de acordo com o grau dessa variável e, então, podemos classificar dois tipos de organismos:

  • Organismos estenohalinos: organismos que se distribuem em áreas com uma pequena variação de salinidade. São específicos de um determinado valor de salinidade.

  • Organismos eurihalinos: organismos que se distribuem em áreas com uma ampla variação de salinidade.



Esquema de um estuário e suas subdivisões de acordo com o grau de mistura. As manchas verdes representam os manguezais. Espécies eurihalinas são encontradas nos três tipos de subdivisões, já espécies estenohalinas são associadas a somente um tipo. Fonte: Filipe Neves, 2020 ©



Essa variável abiótica associada a outras, como o tamanho dos grãos do sedimento, são determinantes na distribuição dos seres vivos no estuário. Por exemplo, em estuários bem misturados há um gradiente de distribuição dos organismos desde o alto estuário até o baixo estuário.


Isto é, organismos mais associados a ambientes fluviais, de baixa salinidade, têm maior distribuição no alto estuário; enquanto organismos mais associados a ambientes marinhos, de alto valor de salinidade, são encontrados no baixo estuário. Assim, temos um gradiente de distribuição de organismos desde o alto estuário ao baixo estuário. Espécies eurihalinas podem ter maior ocorrência no médio estuário, onde as variações de salinidade são bruscas.



A ECOLOGIA EM ESTUÁRIOS


- Entendendo a produtividade no sistema estuarino


E como se dá a relação dos organismos estuarinos com o seu tão variável habitat? Os estuários são ambientes altamente produtivos em termos da quantidade de carbono no sistema ao longo de um dia (sim, carbono! Esse é o parâmetro pelo qual se mede a produtividade de um ecossistema).


E qual a importância dessa taxa de carbono no sistema, ou melhor, dessa produtividade? É ela que sustenta as várias espécies que existem nos sistemas, inclusive no sistema estuarino. Ela faz parte da composição do alimento, ou seja, fonte de energia para a diversidade de seres vivos do ambiente. Inclusive, os ambientes de maior produtividade no planeta são os que apresentam a maior diversidade de organismos vivos.


E de onde provém esse carbono? Tanto da produtividade primária das algas, plantas e bactérias fotossintetizantes quanto do constante fluxo de matéria orgânica que vem dos rios, marés e circulação do próprio sistema. A produtividade primária pode ser expressa como a massa de carbono que é produzida ao longo de um período de tempo pelos organismos fotossintetizantes. Um outro tipo de produtividade, a produtividade secundária, é a taxa de carbono produzida pelos organismos heterotróficos ao longo de um período de tempo.


É importante entender esse processo de produção de carbono a fim de compreender os fluxos de matéria e energia no sistema, que são peça fundamental no sustento das teias tróficas. E essas teias tróficas nada mais são do que as relações em que um animal (herbívoro) se alimenta de organismos produtores como os vegetais e as algas; por sua vez, um outro animal (carnívoro) se alimenta do herbívoro; outro decompõe o ser vivo que morreu, ou suas partes, e assim vão ocorrendo as relações tróficas ou alimentares no sistema (ou ecossistema).


Por serem ambientes altamente produtivos, os estuários servem como fonte de alimento para uma grande variedade de organismos marinhos. Tubarões, outros peixes, peixes-boi, crustáceos, entre outros, apresentam o hábito de utilizarem os ambientes estuarinos tanto como fontes de alimento quanto locais de reprodução.




Margem do Canal de Santa Cruz no município de Itamaracá (Pernambuco), onde vemos muito material orgânico sobre o sedimento e algumas algas esverdeadas, que podem servir de alimento para as espécies estuarinas. Fonte: Filipe Neves, 2016 ©.



- A teia trófica no sistema estuarino


No sedimento dos estuários há uma grande quantidade de matéria orgânica. Nesses locais, espécies detritívoras e decompositoras realizam um importante papel na transformação desse material em moléculas mais simples e que poderão ser utilizadas por produtores primários na fotossíntese, como o fitoplâncton, as plantas marinhas e as espécies de mangue. Portanto, a teia trófica estuarina é “mais caracterizada” pelo sistema decompositor, constituído por detritívoros e decompositores. Mais caracterizada em termos, pois há uma grande parte de organismos que também servem na cadeia de pastagem.


Organismos detritívoros são alguns crustáceos, como caranguejos e algumas espécies de copépodes. Eles são detritívoros porque quebram a matéria orgânica em partes menores ao se alimentar desse material. Organismos decompositores são as bactérias heterotróficas do sedimento, que realizam processos anaeróbios e produzem compostos de enxofre (por causa disso os manguezais, à margem dos estuários, têm “cheiro de ovo podre”); os fungos também atuam nesse processo decompositor.


Os produtores primários são aqueles que produzem a matéria orgânica necessária à vida nos sistemas ecológicos. No sistema estuarino os produtores podem ser as plantas de mangue, as plantas marinhas com sementes e as algas fitoplanctônicas. Eles são integrantes essenciais para o estuário.


Os consumidores primários, aqueles que se alimentam das plantas, ou seja, os herbívoros, servem como elo entre os produtores primários e os consumidores secundários, pois consomem os produtores primários e são consumidos pelos secundários. Moluscos gastrópodes, algumas espécies de copépodes, algumas espécies de cracas, alguns bivalves são herbívoros.


Os consumidores secundários (aqueles que se alimentam dos herbívoros) e alguns que consomem bactérias são os que mais se beneficiam desses ecossistemas devido à grande quantidade de energia na forma de carbono orgânico ali presente. Amostras de microplâncton (organismos planctônicos menores que 200 µm) provenientes de estuário, por exemplo, revelam uma grande abundância de náuplios e juvenis de copépodes. Isto demonstra a importância que os estuários têm como berçário para essas espécies. É neste ambiente que encontram um habitat propício para a reprodução e a desova.



Gastrópode sobre uma planta de mangue às margens do Canal de Santa Cruz no município de Itamaracá (Pernambuco). Fonte: Filipe Neves, 2016 ©.



A maior parte do alimento em estuários está associada ao ambiente bentônico nos manguezais, onde há grande quantidade de matéria orgânica, que é fonte principal de energia para a teia trófica nesses ambientes.

Há espécies de peixes estuarinos que evoluíram com algumas adaptações ao ecossistema estuarino. Os olhos são voltados dorsalmente (para cima) e seu corpo é achatado dorsoventralmente como, por exemplo, os linguados. Como seu alimento (bentônico) está no solo, eles têm o corpo achatado e a boca voltada para baixo, ficando mais fácil para se alimentarem. Além disso, como ficam próximo ao sedimento e seus olhos são voltados dorsalmente, então, qualquer predador que se aproxime é logo avistado e, assim, eles ganham mais tempo de se proteger. Esses são alguns dos desafios e relações da vida aquática marinha no ecossistema estuarino.


O ambiente estuarino tem sofrido pressões antrópicas ao longo dos anos em várias partes do mundo. Desse modo, além do que a vida marinha já passa para sobreviver nesse ambiente extremamente variável, nos últimos séculos outras pressões também têm sido impostas a tais espécies, como redução de suas populações e a seleção de características adaptativas a este novo ambiente impactado pelo ser humano.




Bibliografia


BEGON, M.; TOWNSEND, C.R.; HARPER, J.L. Ecology: from Individuals to Ecosystems. 4 ed. Blackwell Publishing, p. 499-524, 2006


GARRISON, T. Coasts, pp. 244-269; Pelagic Communities, pp. 294-323; Benthic Communities, p. 324- 347. In GARRISON, T. Fundamentos de Oceanografia. Cengage Learning. 2010


VALLE-LEVINSON, A. Definition and classification of estuaries, p. 1-6. In VALLE-LEVINSON, A. Contemporary Issues in Estuarine Physics. Cambridge. 2010.



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