O papel das conchas no ambiente marinho

Autores: Fernanda Cabral Jeronimo, Raphaela A. Duarte Silveira, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró



O hábito de retirar conchas da praia é comum e pode ser prejudicial ao ecossistema marinho. Fonte: Julia Roman/Pixabay (CC0)

Como não pensar em conchas quando se fala de praia? Como não se encantar com as diversas formas e cores que possuem? Querer levar um pedacinho de um lugar para casa pode parecer uma boa lembrança, porém traz consequências a longo prazo para o ecossistema.


QUAL A IMPORTÂNCIA DAS CONCHAS E DO QUE SÃO FEITAS?

As conchas estão presentes na maioria dos moluscos marinhos externamente, como nas ostras, ou internamente, como nas lulas; e possuem a função de sustentar e proteger esses animais, que possuem o corpo mole.

Tomaremos como exemplo o mexilhão Mytilus edulis. Desde a fase larval até a fase adulta, a alimentação permite ao organismo retirar do mar substâncias essenciais para sua formação e desenvolvimento. Uma dessas importantes substâncias é o carbonato de cálcio que, ao ser gradativamente secretado e liberado pelo manto (tecido epidérmico), forma a concha do mexilhão.


Esquema mostrando a anatomia do mexilhão. Fonte: adaptado de OpenClipart-Vectors/Pixabay (CC0)


Com a morte de animais como o mexilhão, sua concha se deposita no fundo do mar é decomposta por alguns microrganismos e progressivamente degradada, disponibilizando novamente o cálcio no meio ambiente para ser utilizado por outros animais ou formações calcárias, e até mesmo compor parte do sedimento das praias.

Essa sequência é chamada de ciclo do cálcio, um ciclo biogeoquímico de extrema importância aos ecossistemas, pois possibilita a reciclagem de elementos químicos no meio ambiente.


A CONSEQUÊNCIA DA RETIRADA DE CONCHAS

Mesmo após a morte do animal, as conchas ainda podem ser facilmente encontradas na praia de forma íntegra. Isso acontece porque o carbonato de cálcio confere rigidez e resistência à estrutura, podendo preservar suas formas e cores, que chamam a atenção principalmente dos turistas. Muitas vezes, os visitantes optam por levar o material como forma de lembrança, seja in natura ou em artesanatos. No entanto, a retirada em grande escala pode gerar grandes impactos ao ambiente marinho que é especialmente sensível, como a queda da disponibilidade de cálcio. Essa alteração impacta até mesmo os moluscos que não fabricam as próprias conchas.

As muitas espécies de ermitões, crustáceos pertencentes à Ordem Decapoda, utilizam conchas desocupadas de gastrópodes para se proteger, criando para si um microambiente úmido. Conforme seu crescimento, a concha ocupada torna-se pequena demais para abrigar o ermitão, exigindo que seja substituída por uma concha maior.

Se não há conchas disponíveis no ambiente, essa troca não será possível, o que deixa o animal vulnerável em seu próprio habitat, ameaçando sua sobrevivência. Dessa forma, aumentam as disputas entre as espécies por abrigos calcários e isso pode ter um alto custo, como exemplificado na imagem abaixo, onde um ermitão depende da interação com o lixo para se abrigar, utilizando uma lata de metal no lugar da concha.


Caranguejo ermitão terrestre Coenobita brevimanus utilizando uma lata para se abrigar. Fonte: Naturalselections/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)


A CONSEQUÊNCIA DO EXCESSO NÃO NATURAL DE CONCHAS

Tratando-se de conchas e reciclagem de nutrientes, não só a diminuição do estoque calcário causa impactos ecossistêmicos. Em circunstâncias específicas, como na maricultura, o descarte excessivo de conchas também causa sérios danos ambientais.

O cultivo de organismos marinhos, ou maricultura, é uma atividade amplamente praticada no Brasil. Nossos ricos litorais possibilitam o cultivo em larga escala em fazendas marinhas, importante para gerar rendas principais ou alternativas, assim como alimentação para a comunidade local.

O estado de Santa Catarina é um dos maiores produtores de ostras e mariscos do Brasil, responsável por 95% da produção nacional. Tamanha atividade gera uma grande quantidade de resíduos, que são descartados massivamente e de forma não natural na etapa de limpeza dos organismos para a venda ou posterior ao consumo, como as conchas.


Cultivo de ostras durante a maré baixa. Fonte: 1957725/Pixabay (CC0)


A consequência do descarte inadequado de toneladas de conchas nas praias é a eutrofização, que consiste no grande aporte de substâncias orgânicas nas águas. Esse excesso de cálcio despejado no ambiente não é absorvido de forma natural e causa o assoreamento, que é o acúmulo de sedimentos no ambiente marinho. Tamanhos impactos alteram profundamente a qualidade da água e prejudicam o funcionamento de todo o ecossistema.


ENTÃO, QUAL A MELHOR FORMA DE LEVAR RECORDAÇÕES DO AMBIENTE E PRESERVÁ-LO AO MESMO TEMPO?

Levando em conta a origem antrópica desses impactos, a educação ambiental torna-se uma das principais ferramentas para a conscientização da população e resolução de problemas ambientais. A troca de informações e a adoção de ações conscientes permitem que os seres humanos desenvolvam ideias e práticas para uma convivência harmônica e sustentável com o meio ambiente. Como, por exemplo, não retirar as conchas da praia ou destinar para a reciclagem os resíduos oriundos do cultivo de ostras, que serão utilizados na fabricação de ração animal, correção de acidez do solo e na indústria farmacêutica.

Pequenas ações geram grandes resultados. Apenas admirar o ambiente como ele é também é uma forma de preservá-lo! Afinal, as fotografias e vídeos têm o poder de eternizar momentos e também são lindas formas de lembranças.



Bibliografia

BOCCHESE, Daniel Celestino Fornari. Eliminação de matéria orgânica de conchas de ostras por processo biológico. 2008. 25 f. TCC (Graduação) - Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental, Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/124346. Acesso em: 20 jan. 2020.

CEREZINI, Monise T. et al. ESTÍMULOS QUÍMICOS LIBERADOS POR GASTRÓPODES RECÉM MORTOS AJUDAM OS ERMITÕES CLIBANARIUS VITTATUS (DECAPODA: ANOMURA) A ENCONTRAR NOVAS CONCHAS? 2009. Disponível em: http://ecologia.ib.usp.br/curso/2009/pdf/PO2/PO2_perfume_de_mulher.pdf. Acesso em: 14 jan. 2020.

CORREIA, Monica Dorigo; SOVIERZOSKI, Hilda Helena. Ecossistemas Marinhos: recifes, praias e manguezais. Alagoas: Edufal, 2005. 55 p.

DOMBROWSKY, Mayla Yasuoka. Caracterização de impactos do turismo em ambientes recifais em Taipu de Fora (BA) como subsídio para o desenvolvimento de atividades educativas e turismo sustentável. 2016. 57 f. Trabalho de conclusão de curso (Ecologia) - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Instituto de Biociências (Campus de Rio Claro), 2016. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/155838. Acesso em: 15 jan. 2020.

DUESING, Bill. The calcium cycle. Curriculum units by fellows of the Yale-New Haven teachers institute: Skeletal Materials-Biomineralization, 7. Disponível em: <http://teachersinstitute.yale.edu/curriculum/units/1985/7/85.07.08.x.html>. Acesso em: 13 jan. 2020.

D`ÁVILA, Sthefane; RESENDE, Raquel. A cada um a sua concha. Revista Brasileira de Zoociências, Juiz de Fora, v. 17, n. 2, p.7-15, 20 dez. 2016. Disponível em http://periodicos.ufjf.br/index.php/zoociencias/article/download/24641/13814. Acesso em 12 jan. 2020

RITTER, Matias; ERTHAL, Fernando. Conchas na Praia. Ciência Hoje, Porto Alegre, v. 55, n. 327, p.33-35, jul. 2015. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/278727212_Conchas_na_praia_vestigios_valiosos_de_uma_historia_complexa. Acesso em: 13 jan. 2020.

ROSA, Rogério da Silva; MESSIAS, Rossine Amorim; AMBROZINI, Beatriz. Importância da compreensão dos ciclos biogeoquímicos para o desenvolvimento sustentável. 2003. 52 f. Monografia - Curso de Química, Instituto de Química de São Carlos - Usp, São Carlos, 2003. Disponível em: http://fernandosantiago.com.br/bgquitexto.pdf. Acesso em: 14 jan. 2020.


#concha #moluscos #carbonatodecálcio #impacto #BiologiaMarinha

282 visualizações

Quero receber por email os artigos novosl!

© 2020 Projeto Biologia Marinha Bióicos