Organismos bentônicos: o que são e como os impactamos

Atualizado: Abr 7

Autores: Lucas Rodrigues da Silva, Mariana P. Haueisen Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró



Ouriço-do-mar em uma rocha. Fonte: Carolina Umberto/Pixabay (Domínio Público).



No ambiente marinho, podemos dividir os organismos em três grandes grupos: o plâncton (organismos que possuem locomoção limitada), o nécton (organismos que, ao contrário do plâncton, conseguem vencer a movimentação dos oceanos, como as aves marinhas e mamíferos marinhos) e bentos (que vamos explicar logo abaixo).


Os organismos com hábitos bentônicos são seres vivos que dependem de um substrato, seja ele consolidado (ou firme, como: o costão rochoso e os recifes de coral) ou inconsolidado (ou mole, como: areia e sedimentos de baixa granulação). Em diferentes grupos animais existem organismos com esses hábitos, como os: Echinodermata (ouriços, estrelas-do-mar, pepinos-do-mar), Porifera (esponjas marinhas), Annelida (minhocas do mar), Cnidaria (anêmonas e corais) e até peixes bentônicos. Algas também podem ser bentônicas.


Os organismos bentônicos podem ser classificados de diversas formas, tais como localização no substrato, tamanho e forma de locomoção.



Relação ecológica entre animal bentônico: lírio-do-mar e pólipos de coral. Fonte: HENDLER et al., 1995 (p. 52).



Tamanho do bentos. Fonte: Lucas Rodrigues ©. Imagens adaptadas de (da esquerda para a direita): Aliny Fernanda S. B. Portes/Wikipédia (CC BY-SA 4.0); Alvaro Migotto/YouTube; Aliny Fernanda S. B. Portes/Wikipédia (CC BY-SA 4.0); HENDLER et al., 1995 (p. 79).



BENTOS DE COSTÕES ROCHOSOS: PRINCIPAIS ORGANISMOS


Os costões rochosos estão nas regiões costeiras e são considerados um ecossistema de transição entre o mar e a terra, e que estão sujeitos à variação das marés. Os organismos que vivem neste ambiente necessitam de diversas adaptações para sobreviver ali, diante dos diversos tipos de estresse que este local proporciona, como: movimento das ondas, marés, iluminação, temperatura e perda de água.


No costão rochoso, a maioria dos organismos vive sobre o substrato. Representantes desses organismos são:


As esponjas marinhas não possuem movimentação, ficam fixas no sedimento (são sésseis). Desta forma, sua alimentação é via filtração de pequenas partículas de nutrientes e pequenos seres vivos. A reprodução desses animais, na maioria das vezes, é assexuada, via brotamento.



Pólipos de corais associados e esponja em um costão rochoso. Fonte: Lucas Rodrigues ©



Os representantes bentônicos do filo Cnidaria são principalmente sésseis. Possuem esqueleto de carbonato de cálcio ou esqueleto ausente, como os pólipos (anêmonas, gorgônias e pólipos de corais). Os pólipos de corais se associam uns aos outros, formando colônias e resultando a bancada de coral. Esta grande estrutura calcária é, normalmente, encontrada em águas rasas, sustentando uma associação com diversas populações de peixes, algas e outros invertebrados marinhos. Outra forma de encontrarmos os corais é em costões rochosos, e também em recifes em franja. Conheça mais a respeito do modo de vida dos corais neste texto já publicado na revista.


Porém, não existem apenas animais no bentos. As algas, normalmente encontradas flutuando no mar, também estão em diversos substratos. Algas verdes (Chlorophyta), algas pardas (Ochrophyta) e algas vermelhas (Rhodophyta), formam os grupos presentes no costão rochoso. As algas são importantes produtores na cadeia alimentar, servindo de alimento para diversos animais herbívoros.


As algas vermelhas possuem uma grande adaptação contra a herbivoria: secreção de carbonato de cálcio em sua parede celular. Porém, a calcificação também dispõe resistência ao movimento das ondas. Já as algas pardas são conhecidas pelo “Mar de Sargaço” e pelas “Florestas de Kelps”. O filo possui cerca de 900 a 2 mil espécies, podendo ser encontradas em até 40 metros de profundidade.



Na letra A, podemos ver uma alface-do-mar, pertencente ao filo Chlorophyta. Na B e D, temos algas do filo Ochrophyta, sendo na B o gênero Sargassum, e na D, uma “Floresta de Kelps”. E na C, temos um representante do filo Rhodophyta. Fonte: A H. Krisp/Wikimedia Commons (CC BY 3.0); B Bogdan Giuscã/Wikimedia (Domínio Público); C Adaptado de Peter Southwood/Wikipédia (CC BY-SA 3.0); D NOAA's National Ocean Service/Wikimedia Commons (CC BY 2.0).



BENTOS DE SEDIMENTOS NÃO CONSOLIDADOS


Em bentos de praias arenosas é possível encontrar o subfilo Crustacea. Os representantes mais comuns são: tatuí (conhecido também como tatuíra) e o caranguejo maria-farinha. O tatuí é um animal exclusivamente marinho, habitante de regiões subtropicais e temperadas, facilmente encontrado na costa brasileira. Pesquisadores costumam utilizar este animal como bioindicador de poluição, principalmente em estudos envolvendo poluentes químicos. Além disso, são fonte de alimento para aves marinhas.


O caranguejo maria-farinha se alimenta principalmente de moluscos e tatuís. Possui uma estratégia para se proteger de predadores e de temperaturas extremas: as tocas. O número de tocas pode ser utilizado como parâmetro para indicar impactos humanos. Estudos mostram que praias com destinos turísticos podem apresentar números menores de tocas em comparação a praias menos frequentadas.


Os pepinos-do-mar, as bolachas-do-mar e as estrelas-do-mar são os Equinodermos mais comuns nesse ambiente. Além de possuírem representantes com o estilo de vida sobre o sedimento (epifauna), algumas espécies costumam buscar abrigo enterrando-se na areia, como as bolachas-do-mar, e em busca de alimento, no caso das estrelas e pepinos-do-mar.


Os grupos mais comuns presentes nos sedimentos não consolidados (ou sedimentos moles) são os vermes do filo Nematoda e Annelida. Eles são de extrema importância ecológica, atuando diretamente no ciclo de nutrientes e servindo de base na cadeia alimentar. Ambos os filos possuem representantes que vivem em galerias dentro do sedimento (infauna), mas também existem espécies que se encontram sobre o substrato (epifauna). A movimentação desses animais, na maioria das vezes, é livre, mas existem casos de animais sedentários que optam pela construção de tubos (principalmente os poliquetas).



Tatuí em seu habitat. Fonte: Jerry Kirkhart/Flickr (CC BY 2.0).



IMPACTOS HUMANOS NOS ORGANISMOS BENTÔNICOS


Os organismos bentônicos são afetados diariamente pelos impactos causados pelos seres humanos. O trânsito de veículos nas praias é um dos grandes vilões, pois compacta a areia e dificulta a locomoção dos animais ali presentes.


Os recifes de corais, devido a sua beleza, proximidade da costa e riqueza de espécies que abriga, sofrem com a coleta indevida de animais para fins comerciais (aquarismo, artesanatos com esqueletos de ouriço, por exemplo) ou pelo turismo (mergulho scuba, snorkeling), que é utilizado como forma de lazer e educação sobre os recifes. Em uma prática de mergulho, a âncora de um barco pode ser devastadora se for lançada erroneamente no momento da ancoragem, podendo arrastar rochas e destruir comunidades bentônicas. Além disso, apenas a suspensão de areia pode interferir nos organismos filtradores locais. Outro impacto do turismo é o contato direto com a fauna do costão, podendo causar um estresse desnecessário em peixes e tartarugas que possam estar se alimentando neste ambiente.


É preciso respeitar o espaço desses incríveis organismos. Ao se aproximar do ambiente em que vivem, é importante evitar encostar, pisar e manusear no momento da visualização, para que possamos, assim, reduzir os impactos causados e preservar vidas tão valiosas. Portanto, o incentivo ao turismo responsável é extremamente importante.



Não pise nos corais! Fonte: Autor desconhecido/Pinclipart (Domínio Público).




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