Praias arenosas: seriam desertos de biodiversidade?

Atualizado: Mar 9

Autores: Rodrigo Ilho, Douglas F. Peiró e Thais R. Semprebom


Caranguejo Ocypode quadrata, um dos habitantes da praia arenosa, conhecido popularmente como maria-farinha. Fonte: Hans Hillewaert/WikimediaCommons (CC BY-SA 4.0).

As praias arenosas podem ser verdadeiros paraísos de bem-estar e lazer para nós humanos. Entretanto, o nosso fascínio por elas pode ser ainda maior quando conhecemos a complexidade desse ecossistema!

As praias são uma interface entre o ambiente marinho e o terrestre, onde os fatores climáticos e oceanográficos agem constantemente. Parece até impossível pensar que alguns organismos vivem ali. Mas acreditem, além de belos cartões postais, as areias aparentemente desertas das praias são o lar de criaturinhas fascinantes!

São diversos invertebrados com incríveis adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais para resistirem à hostilidade contínua das ondas, dos predadores e do sobe e desce das marés. Quase não os vemos, porque eles respondem muito rápido aos estímulos ambientais e são hábeis em cavar tocas para se esconder. Alguns desses organismos, que vivem entre os grãos de areia e são chamados de infauna (“a fauna de dentro”). Além dos organismos enterrados na areia, há vários outros que fazem visitas ocasionais.

TIPOS DE PRAIAS

Existem diferentes tipos de praia. As praias mansas (dissipativas ou duras) costumam abrigar mais biomassa do que as praias de alta energia (refletivas ou de tombo). As espécies se distribuem de acordo com suas adaptações e estratégias em faixas, regiões (ou zonas) verticais distintas, de acordo com a exposição da praia às marés.

AS SUBDIVISÕES DA PRAIA EM ZONAS

Ainda longe da água, pisamos a areia seca, acima do limite da maré alta. Esta é chamada região supralitoral ou supramarés. Pode haver vegetação arbustiva ou herbácea adaptada aos borrifos de água salgada (o jundú e a restinga). Este ambiente abriga aves migratórias e de rapina, que se alimentam de pequenos vertebrados e invertebrados. Nesta zona encontramos o caranguejo maria-farinha (Ocypode quadrata), que ilustra a abertura deste texto, de coloração amarelada. Ele é detritívoro e de hábitos geralmente noturnos. Sensíveis ao clima, cavam tocas com quase um metro de profundidade.

A região entremarés ou mesolitoral é aquela onde as ondas espraiam, está sempre úmida e muda de extensão de acordo com as marés. Encontramos aí grande variedade de espécies escavadoras adaptadas a resistir ao arrasto e embate das ondas, ao dessecamento e à respiração com baixa disponibilidade de gás oxigênio nos espaços entre os grãos de areia. Alguns organismos cavam grandes galerias, onde se reproduzem e retêm alimentos trazidos pela água. Além de diversas espécies de moluscos gastrópodes que aí vivem, existe um crustáceo conhecido como corrupto (Callichirus major), exímio escavador de tocas com média de 1,5 m de profundidade. Suas galerias fornecerem condições favoráveis ao estabelecimento de diversas espécies simbiontes (aquelas que vivem associadas a outros organismos) como caranguejos, bivalves e copépodes.

O infralitoral raso é a região onde a areia quase nunca fica exposta, raramente em marés muito baixas. Abriga a maior diversidade de espécies não adaptadas a excursões fora da água, entre elas: siris, caramujos, estrelas-do-mar, bolachas-do-mar e peixes.

Ilustração representando a praia arenosa e a diversidade de organismos que a habitam. Fonte: Lencioni Neto, 1993.

As praias são também o berçário de outras espécies, como as tartarugas marinhas. Apesar de passarem despercebidos aos visitantes, os animais das praias arenosas são importantes constituintes do complexo ecossistema marinho. As praias arenosas estão também sujeitas aos impactos da exploração e poluição humana. É preciso conhecer para preservar!

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