Tartarugas marinhas e o aquecimento global

Autores: Aline Pereira Costa, Raphaela A. Duarte Silveira, Thais R. Semprebom e Douglas F. Peiró



Filhotes de Chelonia mydas – a luta pela sobrevivência começa nos ninhos. Fonte: Mark (Sully) Sullivan/NOAA//WikimediaCommons (CC0).



Há alguns anos escutamos que a Terra está ficando mais quente devido ao aquecimento global. Mas o que de fato é esse aquecimento? O aquecimento global nada mais é que um aumento da temperatura média na superfície do planeta que ocorre principalmente por fatores externos como a ação do homem/emissão de gases do efeito estufa, e também por fatores internos como (tectonismo, vulcanismo).



Dramatização do efeito do aquecimento global - uma representação hipotética do aumento da temperatura do planeta. Fonte: Pete Linforth/Pixabay.



A Terra é cercada por gases que capturam o calor que é emitido pelo Sol (a radiação infravermelha), caracterizando o efeito estufa. Parte deste calor é absorvido pela Terra e a outra parte volta ao espaço. Porém, a liberação excessiva desses gases do efeito estufa faz com que a radiação infravermelha solar que entra na atmosfera fique retida, impedindo que parte do calor escape. Quanto mais gases do efeito estufa estiverem presentes na atmosfera, mais o calor fica preso, e maior será o aumento da temperatura do planeta.


De fato, a temperatura do planeta está aumentando, sendo seu maior registro (recente) em 2019. Com isso, o planeta tem sofrido impactos como aumento da ocorrência de eventos climáticos mais severos; elevação do nível do mar; perda de cobertura de gelo; impactos na saúde; interferências na agricultura; desertificação; alterações na disponibilidade de recursos hídricos e mudanças no ecossistema colocando em risco a sobrevivência de várias espécies.



COMO AS TARTARUGAS MARINHAS PODEM SER AFETADAS?


Diante do aquecimento global as tartarugas marinhas podem entrar em extinção. As tartarugas são animais ectotérmicos, o que significa que dependem da temperatura do ambiente para controlarem sua temperatura corporal. Além disso, elas são animais TSD (sigla em inglês para determinação sexual dependente de temperatura), ou seja, animais cujo sexo será determinado em função da temperatura durante a incubação de seus ovos.



Fêmeas de Dermochelys coriacea (tartaruga de couro) desovando na praia de Povoação, litoral norte do Espírito Santo. Foto cedida por Paula Rodrigues Lopes Guimarães ®.



Nas tartarugas marinhas, a determinação do sexo dos filhotes acontecerá durante o segundo terço do desenvolvimento embrionário. Desta forma, a temperatura está relacionada com a determinação do sexo. No caso das tartarugas marinhas, em média, incubações com temperatura entre 26 e 18ºC favorecerão o nascimento de machos, enquanto incubações com a temperatura acima de 30 ºC são favoráveis ao nascimento de fêmeas. Porém, vale ressaltar que incubações com temperaturas extremamente baixas ou altas são letais ao desenvolvimento do embrião.



Ninho de Caretta caretta (tartaruga cabeçuda) na praia de Povoação, litoral norte do Espírito Santo. Foto cedida por Paula Rodrigues Lopes Guimarães ® .



Por dependerem da temperatura para determinação do sexo, as tartarugas marinhas estão com sua sobrevivência ameaçada pelo aquecimento global. Se a temperatura do planeta continuar aumentando rapidamente, as tartarugas poderão deixar de existir, pois a elevação da temperatura proporciona a produção de fêmeas (ocasionando a feminilização da espécie) ou então, com a incubação em areias muito quentes seus ovos podem se tornar inviáveis.


Um estudo realizado na região da Grande Barreira de Corais na Austrália analisou duas populações de tartarugas-verdes (Chelonia mydas) encontradas em extremos opostos da Barreira de Corais (uma população na parte norte, onde as praias são mais quentes; e outra população da parte sul, onde as praias são mais frescas). Os pesquisadores constataram que a população do norte apresentou uma proporção maior no número de fêmeas em comparação com a do sul. Esta região já havia se mostrado afetada pelo aquecimento global, já que suas águas mais quentes ocasionaram o branqueamento dos corais.



Representação da proporção sexual entre machos e fêmeas na Barreira de Corais da Austrália. Águas mais frias, ao sul da Barreira de Corais, com maior proporção de machos. Águas mais quentes, ao norte da Barreira de Corais, com maior proporção de fêmeas. Fonte: Elaborado por Mariana Haueisen com base nos dados de Jensen (2018). Foto: Brocken Inaglory/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).



Quando a temperatura do planeta aumenta, consequentemente aumenta a temperatura do ar, da água do mar e da areia. Pesquisadores mostraram em um estudo que a temperatura em praias de diferentes cores de areia influenciam na determinação do sexo. Com base na relação entre a temperatura do ar e temperatura da areia, eles fizeram estimativas da temperatura da incubação dos ovos e previsões de nascimento de fêmeas em praias de areia clara e de areia escura. A estimativa inicial foi realizada entre os anos de 1854 a 2013, onde os resultados foram que praias com areia de cor clara produziram 55,60% de fêmeas, enquanto praias de cor escura produziram 87,90% de fêmeas. Porém, quando as projeções foram realizadas para estimativas futuras (entre 2013 - 2100) os resultados obtidos foram de 97,80% de fêmeas produzidas nas praias claras e de 99,54% de fêmeas produzidas nas praias escuras. Para eles, o aquecimento global deveria ser benéfico às tartarugas marinhas, pois a partir do momento que se tem mais fêmeas, o número de ninhos consequentemente aumenta, o que elevaria a taxa natural de crescimento populacional. Entretanto, isso só seria viável se houvesse machos suficientes para acasalamento e fertilização de todas as fêmeas, assim como espaço suficiente nas praias para a construção dos ninhos.



IMPORTÂNCIA DAS TARTARUGAS MARINHAS


Diante disso, a preocupação com a sobrevivência das tartarugas marinhas é porque mesmo sendo animais que já sobreviveram a várias flutuações de temperatura em escalas geológicas, o atual aquecimento global vem acontecendo em um ritmo tão acelerado que provavelmente as tartarugas não conseguirão se adaptar com a velocidade necessária.


As tartarugas marinhas são muito importantes no ecossistema marinho, pois são animais migratórios, sendo responsáveis pela transferência de energia entre os ambientes marinhos e terrestre; são consumidores de organismos marinhos e também servem de presa para diversos animais; servem de substrato para outras espécies (carregando em seu casco cracas e moluscos); e por fim são capazes de realizar a reciclagem de nutrientes, já que consegue afetar a estrutura e funcionamento das áreas de forrageamento (excretando resíduos onde passam).


Por sua importância no ecossistema marinho é que se torna necessária a proteção desses animais. As estratégias de conservação adotadas para proteção das tartarugas podem ser: redução intencional da temperatura de incubação nas praias de nidificação; sombreamento de ninhos para baixar a temperatura de incubação; e a translocação de ninhos localizados em praias de areia escura para praias de areia clara.



Adulto de Chelonia mydas (tartaruga-verde), espécie estudada na Barreira de Corais da Austrália. Fonte: Bernard Dupont/WikimediaCommons (CC BY-SA 2.0).



O fato é que os pesquisadores estão em constante estudo, monitorando não só as praias de nidificação espalhadas pelo mundo, com intuito de saber a taxa de nascimento de fêmeas (o que não é uma tarefa fácil), mas também é necessário saber mais sobre o comportamento dos machos. Desta forma poderão realizar rápidas implementações de conservação, assim garantindo a sobrevivência destes animais e mantendo o equilíbrio do ambiente marinho.




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