Férias, calor e diversão. É tudo o que esperamos quando vamos à praia, né? Mas você já deve ter ouvido falar de alguém que estava dando um mergulho no mar e de repente sentiu uma queimadura no corpo. Talvez isso até já tenha acontecido com você. E sim, dói, incomoda e arde. Essa queimadura é causada por águas-vivas, ou medusas, como muitos conhecem. 

 

 

Espécie de água-viva Chrysaora pacifica no Georgia Aquarium em Atlanta, Geórgia, EUA. Fonte: Raphaela Duarte ©, 2015.

 


Os termos "água-viva", “medusa”, ou “mãe d'água” podem remeter a uma ampla gama de organismos marinhos, como cnidários, ctenóforos e taliáceos, que possuem corpos transparentes, de aspecto gelatinoso. Entretanto, apenas os cnidários são responsáveis pelos acidentes com banhistas. 

 

 

FILO CNIDARIA

 

O filo Cnidaria é um grupo muito diverso, com 16.363 espécies já descritas. As espécies podem ser classificadas em quatro grandes classes: Anthozoa (anêmonas-do-mar e corais), Scyphozoa (algumas espécies de águas-vivas conhecidas como cifomedusas), Cubozoa (algumas espécies de águas-vivas conhecidas como cubomedusas) e Hydrozoa (hidras e caravelas). 

 

Esse filo pode ter dois tipos morfológicos: pólipo, que geralmente é séssil ou com pouca mobilidade, e a medusa, que é livre natante. A classe Anthozoa apresenta somente o tipo pólipo entre seus indivíduos; as demais classes possuem os dois tipos morfológicos. 

 

 

Tipos morfológicos dos Cnidários. A esquerda há um representante do tipo pólipo e a direita, uma medusa. Fonte: Pearson Scott Foresman/WikimediaCommons (Domínio Público) e Pengo/WikimediaCommons(Domínio Público).

 

 


CARACTERÍSTICAS GERAIS

 

As águas-vivas ou medusas apresentam morfologia semelhante à de um guarda-chuva aberto, com tentáculos na extremidade inferior. O seu corpo possui uma consistência gelatinosa, já que cerca de 98% dele é composto por água. 

 

Mas afinal, por que elas queimam? Isso ocorre porque em seu corpo, principalmente nos tentáculos, há células denominadas cnidócitos (presentes em todos os representantes do filo Cnidaria). Essas células são especializadas na produção de toxinas, usadas para capturar presas e se defender de potenciais ameaças. Essas toxinas ficam armazenadas dentro de pequenas cápsulas, chamadas de nematocistos, que são ativadas e injetam o seu veneno em resposta a um estímulo mecânico, como o contato com a pele de um banhista desavisado. Por se tratar de uma inoculação de toxinas, o termo “queimadura” acaba se tornando inapropriado, sendo mais adequado os termos “intoxicação” ou “envenenamento”. A ativação de um nematocisto é um dos fenômenos biológicos mais rápidos da natureza e só pode ser visualizado através de filmagem em super câmera lenta, conforme o link aqui.

 

 

 Composição de um cnidócito. Perceba que dentro da célula há o nematocisto, ativado ao toque. Fonte:  adaptado de Josuevg/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0).

 


QUÃO PERIGOSO É O VENENO?

 

A composição química das toxinas varia de uma espécie para outra e a gravidade das intoxicações depende da espécie e da região do corpo atingida. Embora as águas-vivas possam matar suas presas, o seu veneno geralmente não é fatal aos seres humanos, com algumas exceções. As espécies que ocorrem no Brasil não causam lesões epidérmicas graves e os sintomas geralmente se resumem a dores e irritações na pele, mas em casos raros podem ocorrer reações sistêmicas como febre, câimbras, vômitos, dificuldades respiratórias e nesses casos recomenda-se a procura por atendimento médico. 

 

 

Queimadura de água-viva em uma banhista. Fonte: marinal/Flickr (CC BY-NC-SA 2.0). 

 


O QUE FAZER SE FOR “QUEIMADO”?


1. Saia da água imediatamente;

2. Procure um posto salva-vidas para receber os primeiros socorros;
3. Caso não encontre um posto, lave a área do contato com água do mar e, se possível, realizar compressa de água do mar gelada na região para controle da dor;
4. Uma ótima opção é aplicar banho de ácido acético 5% (vinagre), por cerca de 10 minutos, pois essa substância desativa os nematocistos ainda carregados;
5. Evite esfregar a região com areia ou toalhas e, principalmente, água doce que causam a inoculação de mais toxinas a partir de nematocistos ainda não disparados, piorando a lesão;
6. Nada de urinar na região do contato, como muitas pessoas pensam! A urina pode ter o efeito parecido com o da água doce;
7. Em caso de restos de tentáculos na pele, removê-los com o auxílio de luva e pinça, de forma suave e reaplicar novos banhos de água do mar e vinagre por 30 minutos;
8. Identificar reações alérgicas como espirros, roncos e chiados no pulmão, dificuldade para respirar, marcas na pele em outras regiões, inchaços da face e vias aéreas. Nesses casos, procurar auxílio médico. 

 

 

 Procure um posto de salva-vidas caso for queimado por uma água-viva (A). Banhistas esperando para serem atendidos por salva-vidas no litoral do RS durante um surto de acidentes com águas-vivas (B). Fonte: Frenz 69/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0) e e 9º Batalhão do Corpo de Bombeiros.

 

 

Agora você já sabe: quando for à praia e sentir uma queimadura ou ardência, saia imediatamente do mar e procure ajuda. Mas nunca, nunca mate ou machuque o animal, até porque é você que está adentrando o ambiente dele, não é mesmo?

 

 

Bibliografia

 

GEORGIA AQUARIUM. Animal Guide. Disponível em: https://www.georgiaaquarium.org/animal-guide/. Acesso em: 14 fev. 2019.

 

HADDAD JR., V.; SZPILMAN, D.; SZPILMAN, M. 2017. Lesões por águas-vivas – Recomendação Sobrasa. SOBRASA. Disponível em: http://www.sobrasa.org/lesoes-por-aguas-vivas-recomendacao-sobrasa/. Acesso em: 21 fev. 2019.


HAYS, G.C.; DOYLE, T.K.; HOUGHTON, J.D.R. A Paradigm Shift in the Trophic Importance of Jellyfish?, Trends in Ecology and Evolution, v. 33, n. 11, p. 874-884, 2018.

 

MARIAN, J.E.; LOPES, S.; NOGUEIRA, J.M.M. Filos Porifera e Cnidaria. In:___. Diversidade e Evolução dos Fungos e Animais Invertebrados. 3. ed. São Paulo: USP/Univesp. cap. 2, p. 40-66.

 

MÉDICO RESPONDE. Como tratar queimadura de água-viva? Disponível em: https://medicoresponde.com.br/como-tratar-queimadura-de-agua-viva/. Acesso em: 14 fev. 2019.

 

RUPPERT, E. E., FOX, R. S., BARNES, R. D.. Cnidários e Ctenóforos. In: _________. Zoologia dos Invertebrados. 6ed. São Paulo: Roca, 1996. p. 95-170.

 

ZHANG, Z. Animal biodiversity: An update of classification and diversity in 2013. Zootaxa, v. 3703, n. 1, p. 5-11, 2013.

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