Monitoramento subaquático de tartarugas marinhas por meio de fotoidentificação em Bombinhas/SC

 

 Tartaruga marinha identificada por meio da fotoidentificação com o código CM009, carinhosamente chamada de Hy. Fonte: Projeto Tartabinhas ©. 

 


Você sabia que é possível monitorar as tartarugas marinhas usando fotografia?  Bombinhas, no Estado de Santa Catarina é uma área de alimentação e descanso das tartarugas marinhas verde - Chelonia mydas juvenis e seu comportamento na região é monitorado pelo Projeto Tartabinhas. As tartarugas marinhas possuem  marcas naturais que as identificam como indivíduos únicos (como as marcas digitais dos seres humanos). Esta digital pode ser fotografada debaixo da água, sem a necessidade de capturar o animal. Marcas causadas por seres humanos nos animais também podem ser utilizadas como complemento de sua identificação. 

 

 

METODOLOGIAS ATUAIS DE MONITORAMENTO DAS TARTARUGAS MARINHAS


Existem diferentes maneiras de se monitorar uma tartaruga marinha. O acompanhamento via satélite, a telemetria, é uma delas. Pela telemetria, a rota migratória das tartarugas marinhas é acompanhada e pode ser monitorada por meses ou até anos. Este tempo vai ser determinado pela vida útil do aparelho ou da própria vida da tartaruga. É um método caro e que depende de tecnologia mais avançada, mas pode ser aplicado em qualquer fase de vida do indivíduo. 
 

Outra maneira é pela captura e recaptura, que pode ser do animal em si (com marcação usando anilha) ou de sua imagem fotográfica. O método captura-marcação-recaptura é aplicado pelo Projeto TAMAR e tem como objetivo monitorar a sazonalidade e a taxa de crescimento, dentre outros dados. O método captura e recaptura de imagem é realizado pela primeira vez no Brasil pelo Projeto TARTABINHAS, em Bombinhas, Santa Catarina, Brasil. Na região, indivíduos de tartaruga-verde (Chelonia mydas), são observados pela equipe Tartabinhas. O Projeto visa a monitorar a sazonalidade dos indivíduos, seu tempo de permanência na região e o seu comportamento durante a sua “estadia” usando um método menos invasivo, a observação in situ
 

A preparação para a atividade começa um dia antes da entrada da equipe na água, com o preparo dos equipamentos necessários para o mergulho e a fotografia subaquática. Na água, a expectativa de fotografar o maior número de indivíduos é grande. Este monitoramento é complementar aos do TAMAR e outros projetos de proteção e conservação das tartarugas marinhas, como os Projetos (A)MAR, Karumbé, Caminho Marinho, entre outros. 

 

 

FOTOIDENTIFICAÇÃO


Cada indivíduo de tartaruga marinha possui uma marca única em sua cabeça. O número de placas (queratinosas)e suas formas e posição não se repetem, tornando possível um monitoramento fotográfico dos indivíduos desde seu nascimento. Esta metodologia menos estressante ao animal foi desenvolvida por Gail Schofield, na Grécia, em tartarugas marinhas verdes e por Clair Jean, do Instituto Kelonia, nas Ilhas Reunião (França) nas tartarugas de pente e vem sendo aplicada ao redor do mundo por diversas entidades, que buscam uma maneira de padronizar e universalizar esses dados. Conforme metodologia de Clair Jean,  a identificação dos escudos é uma série de três dígitos: o primeiro dígito representa o número do escudo localizado imediatamente atrás do olho,  número da linha vertical pós-ocular. O segundo dígito corresponde a posição da placa nessa linha e o terceiro, o número de lados que o escudo apresenta.

 

 

Lateral esquerda de tartaruga marinha fotoidentificada pelo Projeto Tartabinhas pelo código CM006. Fonte: Projeto Tartabinhas©.

 

 

Lateral esquerda de tartaruga marinha fotoidentificada pelo Projeto Tartabinhas pelo código CM006 e pela metodologia aplicada pelo Instituto Kelonia. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.

Código de identificação da tartaruga marinha CM006, Six, gerado pela metodologia do Instituto Kelonia. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.

 

 

FIBRO: A PRIMEIRA TARTARUGA MARINHA FOTO-MONITORADA DO BRASIL

 

Com observações realizadas na praia do Embrulho, centro de Bombinhas, desde 2017, a tartaruga marinha com o código CM003, chamada pela equipe Tartabinhas carinhosamente de Fibro, foi uma das primeiras avistadas e monitoradas. Observada pela primeira vez em 2017, seguiu sendo reavistada quatro vezes em 2018 e mais quatro vezes em 2019, tanto nos monitoramentos diurnos quanto noturnos. Em dezembro de 2018 foi vista pela primeira vez com fibropapiloma. Em 12 de junho de 2019, seus tumores estavam relativamente maiores. 

 

 

 

Imagens de ambos os lados da Fibro, em 2017, ainda sem fibropapiloma. Fonte: Projeto Tartabinhas. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.

 

 

Fotografia da Fibro em 2019, com fibropapiloma no lado esquerdo da cabeça, próximo à boca. A diferença de coloração da água nas imagens é natural. As águas da região mudam de cor conforme época do ano, correntes, chuvas e ventos. Fonte: Projeto Tartabinhas ©. 

 

 

O RESGATE DA TARTARUGA MARINHA FIBRO


No dia 16 de julho de 2019, durante um monitoramento de rotina, a Fibro foi encontrada enredada em linha de pesca em um dos seus principais pontos de descanso. Neste mesmo dia, no mesmo local, também foi encontrada a tartaruga marinha CM011, conhecida como Matilda, que está sendo acompanhada pela equipe desde 2018. A fotografia da Matilda mostra ao fundo a linha de pesca, que foi seguida pelo nosso mergulhador para sua retirada da água. Nesta linha de pesca foi encontrada a Fibro enredada na outra extremidade, que foi capturada pela equipe para retirada da linha e verificação da existência de ferimentos e/ou afogamento. Desenredada e sem nenhum sinal de debilidade ou ferimento, a Fibro foi liberada pela equipe para seu habitat natural. Vamos continuar monitorando a região e observando o que esta interação pode ter causado em seu comportamento subaquático.

 

 

Tartaruga marinha fotoidentificada com o código CM011, conhecida como Matilda, nadando próximo ao parcel de descanso. Linha de pesca perdida ao fundo. Fonte: Projeto Tartabinhas ©. 

 

 

Fibro na areia da praia, após resgate, ao lado da linha de pesca na qual estava enredada. Fonte: Projeto Tartabinhas ©.

 

 

A metodologia de fotoidentificação é comprovadamente eficaz quanto à captura e recaptura de imagens para acompanhamento da permanência de indivíduos em uma região e quanto ao acompanhamento de sua saúde física aparente. Os monitoramentos não só permitem o acompanhamento das tartarugas marinhas como também auxiliam nas limpezas subaquáticas dos mares da região. Limpezas que fazem toda a diferença para salvar vidas marinhas, como foi com a da tartaruga marinha Fibro. 

 

 

Bibliografia

 

CLAIRE JEAN, ESTÉFANO CICÇÃO, ELKE TALMA, KATIA BALLORAIN & JÉRÔME BOURJEA. Método de identificação de fotos para tartarugas verdes e de pente - primeiros resultados da Reunion. Instituto Kelonia, França, 2010. < https://www.iotn.org/wp-content/uploads/2015/11/11-4-PHOTO-IDENTIFICATION-METHOD-FOR-GREEN-AND-HAWKSBILL-TURTLES-FIRST-RESULTS-FROM-REUNION.pdf>. Acesso em: 09/08/2019.

 

GAIL SCHOFIELD, KOSTAS A. KATSELIDIS, PANAYOTIS DIMOPOULOS, JOHN D. PANTIS. Investigating the viability of photo-identification as an objective tool to study endangered sea turtle populations. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, v. 360, p.103–108, 2008.

 

INSTITUTO KELONIA. Disponível em: http://museesreunion.re/kelonia. Acesso em: 09/08/2019.

 

PROJETO TAMAR. Captura, marcação e recaptura. Disponível em: https://www.tamar.org.br/noticia1.php?cod=623. Acesso em: 09/08/2019.

 

PROJETO TAMAR. Fibropapilomatose. Disponível em:  https://tamar.org.br/interna.php?cod=109. Acesso em: 09/08/2019.

 

PROJETO TAMAR. Telemetria. Disponível em: https://www.tamar.org.br/interna.php?cod=335. Acesso em: 09/08/2019.

 

PROJETO TARTABINHAS. Disponível em: https://projetotartabinhas.wixsite.com/projetotartabinhas/tartarguas-marinhas. Acesso em: 09/08/2019.

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