Manguezal: um berçário de vida marinha

Alunos da Bióicos em aula prática no manguezal, em dezembro de 2017. Fonte: Eduardo Donato ©.

 

 

RIO OU MAR? MARINHO OU TERRESTRE?

 

Os manguezais, assim como os costões rochosos e as praias arenosas, são considerados ecossistemas costeiros de transição entre o ambiente terrestre e o ambiente marinho.

 

Eles estão localizados comumente nos estuários, ou seja, desembocaduras dos rios nos mares, e nas margens de lagunas, enseadas, baías e reentrâncias costeiras, onde a água doce dos rios se encontra com a água salgada do mar.


Ocorrem caracteristicamente nas regiões tropical e subtropical e, no Brasil, se distribuem desde a foz do rio Oiapoque, no Amapá, até a cidade de Laguna, em Santa Catarina.


Por estarem associados às áreas de transição entre o rio e o mar, os manguezais estão fortemente sujeitos às subidas e descidas das marés: quando a maré está baixa, o rio corre para o mar e a salinidade na região estuarina é menor; quando a maré sobe, o mar invade o rio e o transborda, alagando todo o ambiente e tornando-o mais salino. A água salgada do mar, misturada com a água doce do rio, resulta na água salobra, que possui condições físico-químicas diferenciadas (mais salgada que a do rio e menos salgada que a do mar) e banha o manguezal até que a maré baixe novamente. Assim, forma-se um gradiente: água doce mais próxima ao rio, salgada mais próxima ao mar e salobra na transição entre os dois. Desta forma, o solo do manguezal é frequentemente inundado e drenado todos os dias, o que gera uma grande variação na salinidade.


Mas o manguezal não sofre influência apenas do mar, os rios também têm papel muito importante na sua formação, já que carreiam grande quantidade de matéria orgânica e sedimentos que se acumulam nos estuários e formam o substrato lamacento do manguezal. Devido à grande quantidade de matéria vegetal e animal que entra em decomposição, o solo é muito rico em nutrientes, mas muito pobre em oxigênio (chamado de hipóxico). 
As bactérias que fazem a decomposição da matéria orgânica são anaeróbicas, ou seja, não usam oxigênio e liberam outros gases nesse processo, como o gás sulfídrico (ou sulfeto de hidrogênio). É por isso que o manguezal tem aquele cheiro tão característico de enxofre

 

Animação mostrando os efeitos das variações da maré em uma área alagável, da qual o manguezal é um exemplo. Na maré baixa, o rio corre para o mar. Conforme a maré sobe, o mar invade o rio e transborda, inundando o manguezal. Fonte: National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA)(Domínio Público).

 

 

Depois de todas essas informações, você pode estar se perguntando…

 

 

… COMO É QUE UM AMBIENTE TÃO SALINO E HIPÓXICO PODE SER UM BERÇÁRIO DE VIDA?


Para viver nesse ambiente de substrato inconsolidado (lamacento), hipersalino, hipóxico e constantemente inundado, os organismos apresentam importantes adaptações, principalmente as plantas típicas, que são chamadas de mangues.


Atenção, não confunda: manguezal é o ecossistema, mangues são as plantas características desse ambiente!


Três gêneros principais e característicos de mangues habitam os manguezais do Brasil: o mangue-vermelho (Rhizophora sp.), o mangue-preto (Avicennia sp.) e o mangue-branco (Laguncularia racemosa). Existem ainda outros gêneros e espécies que ocorrem nos manguezais e em áreas de transição com outros ambientes, e inclusive espécies que não são exclusivas dos manguezais, mas também podem ser encontradas neles, como algumas epífitas. Os mangues e plantas típicas de manguezal são conhecidas como plantas halófitas, pois vivem em ambientes salinos e/ou salobros. Para conseguir esse feito, elas possuem, como adaptações, sistemas que expulsam o excesso de sal de seus organismos ou impedem sua entrada.
 
 

Excesso de sal eliminado de folha de mangue-preto (Avicennia sp.), através de suas glândulas. Esse é um dos mecanismos que as plantas típicas de manguezal possuem. Fonte: Ulf Mehlig/WikimediaCommons (CC BY-SA 2.5).
 


Elas também possuem adaptações para se fixar no substrato lamacento e para retirar oxigênio diretamente do ar, já que esse gás é quase inexistente no solo. Essas adaptações determinam, inclusive, um padrão de zonação horizontal na distribuição dessas plantas. Mais perto da água e de solos menos compactos encontra-se o mangue-vermelho, que tem raízes-escora para se sustentar. Adentrando o manguezal, encontra-se o mangue-preto, que possui raízes aéreas que auxiliam na respiração, captando oxigênio do ar, chamadas de pneumatóforos. Já na região que é inundada por curtos períodos, apenas nas marés mais altas, observa-se a predominância do mangue-branco, cujos pneumatóforos são menos desenvolvidos e em menor quantidade.
  

 

Raízes-escora típicas de mangue-vermelho (Rhizophora sp.), acima, e pneumatóforos típicos de mangue-preto (Avicennia sp.), abaixo. Fonte: Heris Luiz Cordeiro Rocha/WikimediaCommons (CC BY-SA 3.0) e Mural Nativo/WikimediaCommons (CC BY-SA 4.0), respectivamente.

 


As raízes, muito características dos mangues, têm outras funções importantes, já que ajudam a reter a matéria orgânica e os sedimentos transportados pela água. Além disso, elas ainda servem de abrigo para um grande número de animais, que utilizam o manguezal para reprodução ou em pelo menos uma fase do seu ciclo de vida.

 

Nos diferentes nichos criados pelos mangues, encontram-se animais como o siri-azul, o camarão-rosa, robalos, tainhas e manjubas no meio aquático; minhocas, poliquetas, caramujos, mariscos, ostras e caranguejos, como o caranguejo-uçá e o guaiamum, vivendo no substrato; e moluscos como ostras e teredos vivendo na vegetação.
O mangue também é muito importante para o peixe-boi marinho, que o utiliza tanto para reprodução quanto para alimentação.

 

 

 Caranguejo-uçá (Ucides cordatus) pegando uma folha de Rhizophora mangle. Fonte: Ulf Mehlig/WikimediaCommons (CC BY-SA 2.5).

 


Desta forma, apesar da diversidade de flora ser baixa, dominada por poucas espécies de plantas, a fauna do manguezal é muito rica. Sua produtividade, inclusive, é bem alta, e muitas das espécies são de importância até mesmo para a alimentação humana.


E não é “só” por isso que o manguezal é tão importante, não! Nos próximos artigos dessa revista você poderá entender mais a fundo os atributos e funções ecológicas que esse ecossistema tão relevante e os demais possuem!
 

 

 

Bibliografia

 

ALVES, J. R. P. (Org.). Manguezais: educar para proteger. Rio de Janeiro: FEMAR: SEMADS, 2001. 96 p.

 

CORREIA, M. D.; SOVIERZOSKI, H. H. Ecossistemas marinhos: recifes, praias e manguezais. Maceió: EDUFAL, 2005. 55 p. [Conversando sobre ciências em Alagoas].
 

GERLING, C.; RANIERI, C.; FERNANDES, L.; GOUVEIA, M. T. J.; ROCHA, V. (Orgs.). Manual de Ecossistemas Marinhos e Costeiros para Educadores. Santos: Editora Comunicar, 2016. [Rede Biomar].
 

O Ecossistema Manguezal. Disponível em: <http://ecologia.ib.usp.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=70&>. Acesso em: 26 dez. 2017.
 

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Please reload

Seja um apoiador da revista!

 

Para continuarmos nosso trabalho, estamos lançando uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Catarse.

 

VOCÊ PODE SER UM APOIADOR PATROCINADOR desta missão sendo assinante mensal!

Acesse o link e apoie essa ideia! ✅✅✅

Revista Biologia Marinha: um oceano de conhecimento! ✅🌊

Receba os artigos gratuitamente!

© 2019 por Projeto Biologia Marinha Bióicos